Foi com a leitura do poema Elegia que se iniciou na passada sexta-feira, na Biblioteca Nacional, a conversa entre José Saramago e a escritora e tradutora María Kodama, antiga companheira de Jorge Luis Borges. Depois de um encontro em Lanzarote, os dois autores voltaram a reunir--se em debate público com a vida e obra de Borges como pano de fundo. A palestra-colóquio intitulada "E se falássemos de Borges?", organizada pela Fundação José Saramago, é um dos primeiros eventos que esta instituição criou para "mexer com o movimento literário nacional", como revelou a presidente da fundação, Pilar Saramago, que anunciou mais iniciativas. A primeira ocorrerá dia 10 de Julho no Teatro São Carlos e será uma sessão em torno da obra de Jorge de Sena, com a presença dos escritores Eduardo Lourenço, Pedro Tamen e Jorge Fazenda Lourenço. Saramago adiantou também futuras sessões dedicadas a José Rodrigues Miguéis e Raul Brandão. Apesar de terem sido os contos do escritor argentino que "lhe deram grande fama internacional", María Kodama revelou à plateia que "Borges sempre se sentiu um poeta e queria ser recordado como tal, mas tinha constantemente a preocupação de não conseguir chegar ao poema perfeito". A antiga companheira de Borges recordou que a primeira fase da obra do argentino foi dedicada à poesia, mas "depois de ter sofrido um grave acidente na cabeça receou ter perdido a capacidade intelectual para escrever poemas". Devido a este acontecimento, o escritor voltou-se para a escrita de contos. Mais tarde, "quando perde a visão retoma a escrita de poemas, uma vez que eram de fácil memorização". Borges foi definido por María Kodama como "uma pessoa tímida", o que contrasta com os seus relatos de "uma extrema desumanidade", como descreveu Saramago. No entanto, a viúva de Borges justificou tal violência lembrando o passado do escritor. "Em pequeno, Jorge ouviu muitos relatos violentos e, mais tarde, viu matar um homem no Uruguai."A relação de Borges com a política foi "muito complexa". No seu país foi acusado de ser um "traidor", lembrou Kodama. Por isso ele considerava a Suíça, onde viveu e acabou por falecer, "um exemplo do que podia ser o mundo se todas as pessoas fossem tolerantes e convivessem pacificamente com quem é diferente". O poema Os Conjurados, lido por Fernando Pinto do Amaral, retrata esta visão do escritor argentino. No final, Saramago foi questionado quanto à actualidade da obra de Jorge Luis Borges. O escritor comparou Borges a "um fisioterapeuta que põe a funcionar tudo o que está dentro do corpo, o que faz bem à saúde". Nesta iniciativa estiveram presentes a secretária de Estado da Cultura, Maria Paula Fernandes dos Santos, o embaixador da Argentina, Jorge Faurie, o escritor Rui Zink e Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, que publicou grande parte da obra do escritor argentino.domingo, 22 de junho de 2008
E se falássemos de Borges? nas páginas do DN
Foi com a leitura do poema Elegia que se iniciou na passada sexta-feira, na Biblioteca Nacional, a conversa entre José Saramago e a escritora e tradutora María Kodama, antiga companheira de Jorge Luis Borges. Depois de um encontro em Lanzarote, os dois autores voltaram a reunir--se em debate público com a vida e obra de Borges como pano de fundo. A palestra-colóquio intitulada "E se falássemos de Borges?", organizada pela Fundação José Saramago, é um dos primeiros eventos que esta instituição criou para "mexer com o movimento literário nacional", como revelou a presidente da fundação, Pilar Saramago, que anunciou mais iniciativas. A primeira ocorrerá dia 10 de Julho no Teatro São Carlos e será uma sessão em torno da obra de Jorge de Sena, com a presença dos escritores Eduardo Lourenço, Pedro Tamen e Jorge Fazenda Lourenço. Saramago adiantou também futuras sessões dedicadas a José Rodrigues Miguéis e Raul Brandão. Apesar de terem sido os contos do escritor argentino que "lhe deram grande fama internacional", María Kodama revelou à plateia que "Borges sempre se sentiu um poeta e queria ser recordado como tal, mas tinha constantemente a preocupação de não conseguir chegar ao poema perfeito". A antiga companheira de Borges recordou que a primeira fase da obra do argentino foi dedicada à poesia, mas "depois de ter sofrido um grave acidente na cabeça receou ter perdido a capacidade intelectual para escrever poemas". Devido a este acontecimento, o escritor voltou-se para a escrita de contos. Mais tarde, "quando perde a visão retoma a escrita de poemas, uma vez que eram de fácil memorização". Borges foi definido por María Kodama como "uma pessoa tímida", o que contrasta com os seus relatos de "uma extrema desumanidade", como descreveu Saramago. No entanto, a viúva de Borges justificou tal violência lembrando o passado do escritor. "Em pequeno, Jorge ouviu muitos relatos violentos e, mais tarde, viu matar um homem no Uruguai."A relação de Borges com a política foi "muito complexa". No seu país foi acusado de ser um "traidor", lembrou Kodama. Por isso ele considerava a Suíça, onde viveu e acabou por falecer, "um exemplo do que podia ser o mundo se todas as pessoas fossem tolerantes e convivessem pacificamente com quem é diferente". O poema Os Conjurados, lido por Fernando Pinto do Amaral, retrata esta visão do escritor argentino. No final, Saramago foi questionado quanto à actualidade da obra de Jorge Luis Borges. O escritor comparou Borges a "um fisioterapeuta que põe a funcionar tudo o que está dentro do corpo, o que faz bem à saúde". Nesta iniciativa estiveram presentes a secretária de Estado da Cultura, Maria Paula Fernandes dos Santos, o embaixador da Argentina, Jorge Faurie, o escritor Rui Zink e Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, que publicou grande parte da obra do escritor argentino.sábado, 21 de junho de 2008
Falando de Borges

E foi de Borges que se falou ontem.
Em tom informal, José Saramago e María Kodama uniram a experiência de leitura à memória vivencial. Lucidamente, evocaram o génio, destacando a sua modernidade, a sua liberdade, a sua imaginação.
Esta conversa estará disponível a partir de segunda-feira, dia 23 de Junho, no site da RDP, programa A Força das Coisas.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Jorge Luis Borges - Biblioteca de Babel
[...] Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo precipitar-se-á longamente até se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que é infinita. Eu afirmo que a Biblioteca é interminável. [...]Borges, Jorge Luis, Ficções (Obras Completas Vol.I), Lisboa, Teorema
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Entrevista de José Saramago ao jornal Público e à Rádio Renascença
15.06.2008
Maria José Oliveira (PÚBLICO) e Paulo Magalhães (Renascença)
Ainda em convalescença, José Saramago diz que a pneumonia lhe fez "bem". Porque "relativizou tudo" e lhe deu "serenidade"
José Saramago afirma que foi a primeira vez que se "atreveu" a dizê-lo: se existe alguma mensagem nos seus livros, ela está no momento em que um cão lambe as lágrimas de uma mulher, no romance Ensaio sobre a Cegueira. É por essa passagem que o Prémio Nobel da Literatura (1998) gostaria de ser recordado no futuro. Em conversa com o PÚBLICO e a Rádio Renascença, Saramago comentou a suposta gaffe de Cavaco Silva, lamentou o espírito de resignação dos portugueses e falou sobre a pneumonia que o deixou às portas da morte. Em Lisboa, onde vai ficar até meados de Julho, continua a escrever todos os dias as páginas do seu próximo romance, A Viagem do Elefante, que deverá estar concluído em Agosto. Há muita gente em Portugal que não gosta da sua obra. É uma pessoa polémica...
É estranho que comecemos por aí, pelas pessoas que não gostam daquilo que eu digo ou daquilo que eu faço. Não vou dizer que lamento. Faço o meu trabalho e não roubei o lugar a ninguém. Na arte não se rouba o lugar: ocupa-se o seu próprio lugar. Foi o que eu fiz. Há posições extremadas. Ou se ama ou se odeia. Acho muito bem. Não estamos com meias-tintas. Mas há ainda uma outra categoria, mais reduzida, de pessoas que não leram e não gostam.
Que imagem tem do seu país e dos seus compatriotas? Tenho sido severo, algumas vezes. Mas houve uma altura em que disse que gostava daquilo que este país fez de mim - é um dos melhores elogios que se pode fazer. Verifico com pena que continuamos com pouca ousadia no que se refere a projectos e à sua realização. Comparo o nosso país com uma pessoa que está na borda do passeio à espera que alguém a ajude a atravessar para o outro lado. Estamos sempre à espera de alguém que venha salvar a pátria. O grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à mediocridade. O que é um pouco contraditório. Porque temos sonhos de grandeza e o Campeonato Europeu de Futebol é um caso. Fala em falta de espírito crítico. Onde é que isso se nota no dia-a-dia? No comportamento dos cidadãos. Há quem opine criticamente nos jornais. Mas o cidadão médio tem uma preguiça enorme em riscar as opiniões que não sejam aquelas que se trocam por miúdos ao longo do dia. Há três ou quatro ou 50 problemas grandes no mundo. Não vejo a participação dos portugueses nos debates de todas essas coisas. De onde é que vem essa falta de participação? Não sei se é congénito, não sei o que se passa connosco. Connosco incluindo José Saramago? Incluindo-me a mim. Se não fosse isso, seria muito melhor do que aquilo que sou. Que já não estou nada mau. Hoje é Presidente da República o homem que era primeiro-ministro quando decidiu ir para Lanzarote... Sim, senhor. Bom proveito vos faça. Esse primeiro-ministro é hoje Presidente da República. Como é que vê o seu mandato? Nem olho para ele. Refiro-me ao mandato. Há pouco falou-se nas pessoas que não gostam de mim. Pronto, eu também não gosto do professor Cavaco Silva. É o meu direito. E de vez em quando ele dá-me razão. Há dias saiu-se com essa do dia da raça. Não foi um deslize, uma gaffe? Se ele disse dia da raça é porque pensa efectivamente que deveria chamar-se assim, embora não ouse fazer essa proposta. O Presidente deveria ter feito um pedido de desculpas público? Os políticos dificilmente pedem desculpa às pessoas a quem de alguma maneira ofenderam. Consideram-no uma pessoa céptica ou pessimista. Revê-se nisso? Não sou uma espécie de narciso que se vê ao espelho e diz "olha que bom, que pessimista que tu és". Parece que o que é bom é ser optimista. Mesmo que não haja nenhuma razão para isso. Há pessoas que têm razões para estarem contentíssimas com o mundo, têm tudo o que querem. O que é que lhe falta? Não me falta nada. Mas eu não sou um exemplo do que é viver neste mundo. Sou um privilegiado. Mas não posso estar contente. O mundo é o inferno. Não vale a pena ameaçarem-nos com outro inferno porque já estamos nele. A questão é saber como é que saímos dele.
Saul Bellow, também Nobel da Literatura, dizia que à medida que ia envelhecendo ia encurtando frases e as suas obras foram ficando mais magras... Escrevo menos frases longas e o livro fica mais pequeno. A idade tem uma influência grande. Não é agora, aos 85 anos, que eu poderia lançar-me a escrever o Memorial do Convento ou o Evangelho segundo Jesus Cristo. Porque olho para o calendário e pergunto: ainda estarei vivo daqui por um ano? Pensou na morte quando esteve doente? Era inevitável que pensasse. Estive muito perto dela. Se me falarem sobre a morte digo: sim, já sei, estive à porta. Não cheguei a entrar, mas estive à porta. Aceitei essa probabilidade com uma serenidade enorme. Serenidade que conservo hoje. De certa forma, diria que me fez bem aquela doença. Relativizou tudo. Estou a escrever um livro [A Viagem do Elefante] e não quero morrer antes de acabá-lo. Uma das minhas preocupações quando estava entre cá e lá, numa espécie de limbo em que a consciência de mim mesmo não era absoluta, era a de que talvez não pudesse acabar o livro. Afinal, ainda hoje escrevi mais uma página. Lá para Agosto estará terminado. Como é que gostava de ser recordado? O Nobel português?
Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas [Ensaio sobre a Cegueira]. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje enquanto escritor. Se no futuro puder ser recordado como "aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher", ficarei contente. Se alguém procurar naquilo que eu tenho escrito uma certa mensagem, atrevo-me pela primeira vez a dizer que essa mensagem está aí. A compaixão dessa mulher que tenta salvar o grupo em que está o seu marido é equivalente à compaixão daquele cão que se aproxima de um ser humano em desespero e que, não podendo fazer mais nada, lhe bebe as lágrimas.
"Não vou sentar-me outra vez no banco da escola primária"
15.06.2008
Vou continuar a escrever como escrevo hoje. Não vou querer estar a ir constantemente ao dicionário ver se se escreve com "c" ou não. Os revisores encarregam-se disso. Isto vai até 2015, creio, e vamos ter de actualizar dicionários. Agora que eu tenho 85 anos não vou sentar-me outra vez no banco da escola primária para aprender a escrever. Isso faço eu. Há uns apêndices que caem para outra pessoa, neste caso o revisor, que se encarregará de limpar a prosa.
Entrevista publicada no jornal Público (edição impressa) de 15.06.2008 e transmitida no programa Diga Lá Excelência de 14.06.2008


