segunda-feira, 23 de junho de 2008

Última hora - A Maior Flor do Mundo premiada em Chicago

A Maior Flor do Mundo venceu o Prémio de Melhor Argumento no Festival de Curtas-Metragens de Chicago. Na selecção oficial, efectuada a partir de mais de duzentos filmes, figuraram trabalhos de diferentes países, entre documentários e obras de ficção. A Maior Flor do Mundo vê assim reconhecida a sua qualidade, destacando-se o facto de ser o único filme de animação a vencer um Prémio no Festival.
O filme pode ser visto na exposição A Consistência dos Sonhos, patente no Palácio da Ajuda até dia 27 de Julho.
O DVD encontra-se disponível através da Fundação José Saramago.

Kodama entre o génio de Borges e as perguntas geniais de Saramago

Por Isabel Coutinho, Público

Palestra-colóquio ao final da tarde de sexta-feira, em Lisboa

José Saramago revelou-se um óptimo entrevistador. María Kodama, a última companheira de Jorge Luis Borges, riu-se às gargalhadas e lá foi respondendo às perguntas sérias, íntimas e prosaicas do Nobel português. "Como é que Borges dizia que te queria? Explica-nos, explica-nos!"
Já José Saramago tinha lido pela primeira vez o poema Elegia (1963), de Jorge Luis Borges, e estava a dizer para a assistência - que quase encheu o auditório da Biblioteca Nacional, sexta-feira à tarde em Lisboa -, que se tratava de "um belo poema, quase uma autobiografia", quando a sua mulher, Pilar del Río, irrompeu pelo palco vinda da plateia. "É um poema belíssimo mas ninguém ouviu nada", disse-lhe, enquanto ajustava os microfones em cima da mesa. O prémio Nobel da Literatura ainda balbuciou que alguém tinha ido mexer no seu microfone, mas Pilar del Río virou-se para os oradores e avisou: "Para todos e para sempre, o microfone tem que estar em frente à boca!" A plateia desatou às gargalhadas. "Pois", afirmou Saramago. "É a sua experiência de rádio", justificou-se perante os seus companheiros de mesa, que eram María Kodama - escritora, tradutora, companheira de Jorge Luis Borges por mais de vinte anos - e Carlos da Veiga Ferreira, o editor da Teorema, onde estão publicadas em português as Obras Completas do escritor argentino que morreu em 1986. "E então passemos a ler outra vez o poema porque não perdemos nada com isso", rematou o autor de Ensaio sobre a Cegueira. "Oh, destino, o de Borges,/ ter navegado pelos diversos mares do mundo/ ou pelo único e solitário mar de nomes diversos (...)/ e não ter visto nada ou quase nada/ senão o rosto de uma rapariga de Buenos Aires (...)", deu-se assim o mote para a palestra-colóquio E se falássemos de Borges?, uma conversa entre a viúva e o Nobel, organizada pela Fundação José Saramago, a que se seguirão outras dedicadas a escritores. No dia 10 de Julho, no Teatro Nacional de São Carlos, falar-se-á de Jorge de Sena. "Não achas que os leitores ficam prisioneiros dos contos de Borges?" - Saramago tem a intuição de que o acesso à obra do escritor argentino se faz pela leitura dos contos e que às vezes os leitores ficam só por aí. Esquecem que Borges foi um grande poeta. Kodama concordou. O que deu fama internacional a Borges foi a tradução dos seus contos e da sua prosa. Mas, revelou, "ele sempre se sentiu poeta". Mesmo a sua prosa é "uma prosa poética, tem um ritmo especial". Ele preferia ser recordado como poeta e não como contista. Mas como era muito exigente consigo próprio e perfeccionista, sentia uma nostalgia, pensava que nunca ia conseguir chegar a escrever "o poema". "Eu como leitora acho que muitas vezes o conseguiu, mas ele não o sentia da mesma maneira", concluiu María.
Borges começou por ser poeta. Mas a determinada altura teve um acidente. Magoou-se na cabeça numa janela aberta que estava a ser pintada, quando ia para casa de uma amiga, e sofreu uma septicemia. Na época não havia antibióticos, ficou às portas da morte, com febre e pesadelos. Quando melhorou, "milagrosamente", teve medo de ter perdido a capacidade intelectual, a capacidade para escrever poemas. "Então decide que vai escrever um conto porque se fracassasse não sentiria que estava louco ou que tinha perdido essa capacidade." Escreve então o seu conto Pierre Menard, autor de 'Quixote' (onde está a frase "Não queria compor outro Quixote - o que é fácil - mas 'o' Quixote"). A partir daí entra num longo período em que se dedica à prosa, aos contos, e escreve ensaios e crítica literária para jornais. "Quando perde a visão e percebe que lhe é difícil continuar a escrever, vai retomar a poesia. Porque era mais fácil decorar o texto por causa da rima, já que não podia passar ao papel imediatamente o que estava a pensar. "Começou pela poesia, por causa do acidente escreve prosa e mais tarde, por causa da cegueira, regressa à poesia. Na última fase, "já seguro de si", mistura as duas coisas, poesia e prosa. Como era Borges na vida de todos os dias?, quis saber Saramago. "É que Borges era um génio - e continua a ser apesar de já não estar entre nós - como é que se comporta um génio na vida de todos os dias?" A esta "questão prosaica" o escritor quis que Kodama respondesse francamente. Aprendia-se muito, disse ela, era notória a profundidade e diversidade do seu conhecimento. Tinha um enorme sentido de humor e contava muitas histórias da sua avó inglesa, que ele adorava. "Era um ser encantador, divino. Por vezes eu tentava que os meus colegas de turma fossem assistir às aulas de línguas anglófonas que ele me dava. Eles diziam-me: 'Não! Como queres que vamos contigo, ele é velho, os labirintos, os espelhos, por que é que não vens mas é sair connosco?' Eu respondia-lhes: 'Sim, ele é os labirintos, os espelhos, o que vocês quiserem, mas paralelamente a isso é uma pessoa divertidíssima com quem podemos passar momentos muito agradáveis e descobrir uma quantidade de coisas, intelectuais e não só, através do que nos conta." Apesar da sua sabedoria, disse Kodama, as pessoas não se sentiam intelectualmente inferiores a Borges. Sabia guiar as conversas. "Tinha muita consideração pelos outros. E tinha um sentido ético e de delicadeza no trato. Na sua obra também se reflecte isso: tudo está dito, mas tudo é dito de uma maneira especial."
Não há palavras para descrever o ar matreiro do escritor português quando anunciou a María Kodama que lhe ia colocar duas questões "muito íntimas". Durante toda conversa, que durou mais de uma hora, Saramago fez sempre perguntas interessantes, foi dizendo também aquilo que pensava sobre a obra do autor argentino, não fugiu a perguntas difíceis como a sua ligação com a ditadura. Estava visivelmente bem-disposto - a longa doença do ano passado parece estar finalmente a ficar para trás -, com 14 quilos a mais e a recuperar pouco a pouco a massa muscular. "Estavas realmente interessada em aprender inglês antigo ou foste aprender inglês antigo para conhecer Borges?", foi a primeira. Seguiu-se a segunda: "Como é que Borges dizia que te queria?... Explica-nos, explica-nos!" Foi então quando Kodama tinha cinco anos que teve aulas com uma professora de inglês que utilizava um método de lhe ler os textos no original e depois traduzir em espanhol. Leu-lhe um poema em inglês de Borges, do qual Kodama não entendeu nada mas sentiu que havia algo ali que a fazia sentir próximo dele (a solidão). Aos 12 anos, um amigo do pai, que era fanático de Borges, levou-a a ouvir uma conferência do escritor e ela impressionou-se com a sua timidez. Anos depois, já no colégio, viu Borges do outro lado da rua. Vai ter com ele: "Conheci-o quando era uma miúda." Ele riu-se: "Claro, agora você é grande. Em que trabalha?" Ela respondeu-lhe: "Estou a terminar o secundário." Quer estudar o inglês arcaico?, pergunta-lhe ele. "Shakespeare?", arrisca ela. "Não, muito anterior, século X." "Então se calhar é complicado", diz-lhe ela mas ele convence-a, dizendo que vão estudar juntos. Passam a encontrar-se em cafés de Buenos Aires, ele aparecia com os dicionários debaixo do braço. "Divertíamo-nos muitíssimo". E a vida foi-lhes dando outra história que terminou, realmente, "em amor". "E a segunda pergunta?", insistia José Saramago. Kodama ria-se ao início e depois já estava às gargalhadas. "Que palavras utilizava para dizer que te queria...", continuava o autor português. "Isso é importantíssimo. Posso não ser um bom escritor, mas a fazer perguntas sou um génio!", brincou o Nobel, que assim pôs a sala inteira a rir à gargalhada. María e Jorge usavam vários nomes, a maior parte ligados à literatura. "Um desses nomes era tirado de um conto que ele me tinha dedicado em segredo e que se chama Ulrica (in O Livro da Areia). Quis gravá-lo no túmulo em Genebra e em lugar de María Kodama e de Borges coloquei o epitáfio 'De Ulrica a Javier Otárola', porque eram nomes muito especiais para nós. Ulrica vinha também um pouco da Elegia de Marienbad, de Goethe, que ele me recitava em alemão. Ulrike von Levetzow era o nome da jovem amante de Goethe e quando ele fazia amor com ela contava as sílabas nas suas costas, acariciando-as com a mão. Bem, já está dito." E María Kodama e José Saramago prosseguiram com outro assunto antes que a conversa ficasse mais complicada.

domingo, 22 de junho de 2008

E se falássemos de Borges? nas páginas do DN

Foi com a leitura do poema Elegia que se iniciou na passada sexta-feira, na Biblioteca Nacional, a conversa entre José Saramago e a escritora e tradutora María Kodama, antiga companheira de Jorge Luis Borges. Depois de um encontro em Lanzarote, os dois autores voltaram a reunir--se em debate público com a vida e obra de Borges como pano de fundo. A palestra-colóquio intitulada "E se falássemos de Borges?", organizada pela Fundação José Saramago, é um dos primeiros eventos que esta instituição criou para "mexer com o movimento literário nacional", como revelou a presidente da fundação, Pilar Saramago, que anunciou mais iniciativas. A primeira ocorrerá dia 10 de Julho no Teatro São Carlos e será uma sessão em torno da obra de Jorge de Sena, com a presença dos escritores Eduardo Lourenço, Pedro Tamen e Jorge Fazenda Lourenço. Saramago adiantou também futuras sessões dedicadas a José Rodrigues Miguéis e Raul Brandão. Apesar de terem sido os contos do escritor argentino que "lhe deram grande fama internacional", María Kodama revelou à plateia que "Borges sempre se sentiu um poeta e queria ser recordado como tal, mas tinha constantemente a preocupação de não conseguir chegar ao poema perfeito". A antiga companheira de Borges recordou que a primeira fase da obra do argentino foi dedicada à poesia, mas "depois de ter sofrido um grave acidente na cabeça receou ter perdido a capacidade intelectual para escrever poemas". Devido a este acontecimento, o escritor voltou-se para a escrita de contos. Mais tarde, "quando perde a visão retoma a escrita de poemas, uma vez que eram de fácil memorização". Borges foi definido por María Kodama como "uma pessoa tímida", o que contrasta com os seus relatos de "uma extrema desumanidade", como descreveu Saramago. No entanto, a viúva de Borges justificou tal violência lembrando o passado do escritor. "Em pequeno, Jorge ouviu muitos relatos violentos e, mais tarde, viu matar um homem no Uruguai."A relação de Borges com a política foi "muito complexa". No seu país foi acusado de ser um "traidor", lembrou Kodama. Por isso ele considerava a Suíça, onde viveu e acabou por falecer, "um exemplo do que podia ser o mundo se todas as pessoas fossem tolerantes e convivessem pacificamente com quem é diferente". O poema Os Conjurados, lido por Fernando Pinto do Amaral, retrata esta visão do escritor argentino. No final, Saramago foi questionado quanto à actualidade da obra de Jorge Luis Borges. O escritor comparou Borges a "um fisioterapeuta que põe a funcionar tudo o que está dentro do corpo, o que faz bem à saúde". Nesta iniciativa estiveram presentes a secretária de Estado da Cultura, Maria Paula Fernandes dos Santos, o embaixador da Argentina, Jorge Faurie, o escritor Rui Zink e Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, que publicou grande parte da obra do escritor argentino.

Notícia publicada na edição online do Diário de Notícias de 22 de Junho de 2008.

sábado, 21 de junho de 2008

Falando de Borges


E foi de Borges que se falou ontem.
Em tom informal, José Saramago e María Kodama uniram a experiência de leitura à memória vivencial. Lucidamente, evocaram o génio, destacando a sua modernidade, a sua liberdade, a sua imaginação.

Esta conversa estará disponível a partir de segunda-feira, dia 23 de Junho, no site da RDP, programa A Força das Coisas.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Entrevista de María Kodama ao Diário de Notícias

Hoje!

Jorge Luis Borges - Biblioteca de Babel

[...] Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo precipitar-se-á lon­gamente até se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que é infinita. Eu afirmo que a Biblioteca é interminável. [...]

Borges
, Jorge Luis, Ficções (Obras Completas Vol.I), Lisboa, Teorema