quinta-feira, 26 de junho de 2008

Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal

Já está disponível o site da Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal. Este site foi apresentado no âmbito da exposição A Consistência dos Sonhos, patente no Palácio da Ajuda até ao próximo dia 27 de Julho. Do espólio fazem parte manuscritos, agenda, correspondência de José Saramago trocada com outros escritores portugueses. Com este site a Biblioteca Nacional, e o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, dão mais um contributo para o conhecimento dos processos de construção da obra de José Saramago e para o seu enquadramento no panorama cultural português e internacional.
Um espaço a visitar!

Aqui fica a nota explicativa sobre os conteúdos disponibilizados:

«O sítio Web da Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal assenta em duas vertentes: na disponibilização em linha de originais e na edição do inventário do acervo. Ficam acessíveis à investigação os manuscritos do autor que integram o fundo, bem como o testemunho da sua consagração como Escritor de renome internacional - o diploma do Prémio Nobel da Literatura de 1998. Fica também disponível o retrato integral da colecção, o inventário, que, organizando os documentos em função da sua tipologia e autoria, informa sobre a especificidade das peças.

O fundo foi constituído em 1994 por generosa dádiva de José Saramago, anunciada, em carta de 22 de Março, nos seguintes termos: Um dia destes, com vagar, vou dar uma volta aos meus desordenados arquivos. Há cartas, papéis, manuscritos que não tenho o direito de conservar como coisa minha, pois na verdade pertencem a todos. A primeira parte da documentação, entregue pouco depois, integra as séries Correspondência – cartas trocadas com Adolfo Casais Monteiro, José Rodrigues Miguéis e recebidas de Massaud Moisés – e Manuscritos de terceiros, onde se destacam obras de J. R. Miguéis. Posteriormente, em 1998, inicia a entrega de documentação aqui classificada como Manuscritos do Autor. No ano seguinte a colecção é acrescida com o diploma já referido – classificado como Documento biográfico - e a restante documentação das séries de Correspondência.

No que diz respeito a este último tipo de documentos, o inventário organiza-os por autor ou destinatário, regista as datas limite, os locais de emissão predominantes, o número total de documentos e, quando necessário, outra informação pertinente que permita ao investigador estabelecer a relação entre outras peças que integram o acervo. Complementa-se a descrição com uma breve nota sobre o assunto preponderante das missivas. Em termos gerais, trata-se de correspondência de personalidades da cultura portuguesa, situada entre 1952 e 1983, e reflecte, sobretudo, a actividade de José Saramago na Editorial Estúdios Cor, no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias

Fátima Lopes
Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Saramago apresenta prosa «límpida, quase transparente» de Mia Couto

Uma prosa «límpida, quase transparente», onde a naturalidade dos encontros chega a ser sedutora, preenche, segundo José Saramago, as páginas da mais recente obra de Mia Couto, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, ontem apresentada em Lisboa.

Escrito num «assalto pelo sentimento do tempo», como o próprio moçambicano descreve, o romance conta a história de um jovem médico português que parte para Vila Cacimba, em Moçambique, em busca de uma mulata por quem se apaixonou sob a «luz branca» de Lisboa. Em terras africanas, o médico depara-se com mistérios e histórias nunca contadas e acaba por partir numa viagem de palavras e reflexões sobre o próprio sentido da vida, durante a qual se confronta com o pensamento de que «somos donos do tempo apenas quando o tempo se esquece de nós». Durante a apresentação da obra, numa livraria da capital, Mia Couto explicou que o tempo - ou a falta dele - era um assunto que precisava e ainda precisa de resolver mas que, não sendo «resolvível», tem de ser transformado em história, em poesia, em «não assunto». «O estilo a que geralmente um escritor é associado pode ser também uma prisão e pensei que me apetecia desfazer essa amarra. Apetecia-me não saber como escrever, então mergulhei no vazio», conta o escritor, que assinou já cerca de vinte títulos, entre romances, contos, poesia e crónicas. Mia Couto tentou mas José Saramago garante que não conseguiu. Para o Nobel, não existem diferenças significativas no estilo de Venenos de Deus, Remédios do Diabo e dos restantes livros do seu amigo e «camarada de trabalho», o que acaba por ser uma sorte para quem, como ele, admira todo o percurso do escritor moçambicano. «Acho que ele fez o mesmo - e isso parece-me uma virtude - contando outra história», afirmou Saramago. «Estou a gostar do livro, a gostar muito. Tem uma prosa límpida, quase transparente. Encanta-me e quase me seduz a forma como o Mia desenvolve situações que envolvem encontros. É tudo tão natural», descreveu. José Saramago referiu que Mia Couto foi um dos escritores que melhor soube reagir às mudanças trazidas pelo 25 de Abril, respondendo com uma enorme «liberdade criativa» às dúvidas que então surgiram entre os autores, habituados a enfrentar a censura.

Jornal Sol

terça-feira, 24 de junho de 2008

Marisa Paredes visitou A Consistência dos Sonhos

A actriz espanhola Marisa Paredes, um dos rostos emblemáticos do cinema espanhol, viajou até Lisboa para ver a Exposição A Consistência dos Sonhos, em exibição no Palácio Nacional da Ajuda, nesta cidade. Marisa Paredes, juntamente com a italiana Laura Morante e a portuguesa Maria de Medeiros, protagonizou um espectáculo, representado em vários países europeus, Itália, Espanha, Grécia, Portugal, entre outros, em que cada actriz dava voz, na sua própria língua, às mulheres dos livros de Saramago. O espectáculo, de singular beleza e austeridade cénica, foi produzido pela Sete Sóis, Sete Luas, uma produtora italiana que tem como objectivo aproximar as diferentes culturas europeias em espaços afastados dos circuitos comerciais mas aonde a curiosidade e o interesse se manifestam de forma indiscutível. Marisa Paredes foi acompanhada na sua visita à Exposição pelo marido, o director da Filmoteca Nacional de Espanha, José María Prado, autor da foto, e por Pilar del Río. José María Prado é também autor de um retrato fotográfico de José Saramago, de grandes proporções, o maior da Exposição, que pode ver-se na Sala de Pintura do Rei D. Luís do Palácio da Ajuda.

La actriz española Marisa Paredes, uno de los rostros emblemáticos del cine español, viajó a Lisboa para ver la Exposición "La consistencia de los sueños" que se exhibe en el Palacio de Ajuda de Lisboa. Marisa Paredes, junto con la italiana Laura Morante y la portuguesa María de Medeiros, protagonizó un espectáculo, representado en varios países europeos, como Italia, España, Grecia, Portugal entre otros, donde cada actriz daba voz, en su propio idioma, a las mujeres de los libros de Saramago. El espectáculo, de singular belleza y austeridad escénica, estuvo producido por "Sete Sois, Sete Luas", productora italiana que tiene como objetivo acercar las distintas culturas europeas en espacios alejados de los circuitos comerciales pero donde la curiosidad y el interés se manifiestan de forma indiscutible. Marisa Paredes estuvo acompañada en su visita a la exposición por su marido, el director de la Filmoteca Nacional de España José María Prado, autor de la fotografía, y por Pilar del Río. José María Prado es también autor de un retrato fotográfico de José Saramago, de grandes proporciones, el mayor de la exposición, que puede verse en la sala Rey Dom Luis del palacio de Ajuda.

Blindness já tem data de estreia

O filme Blindness, adaptação do romance de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, realizado por Fernando Meirelles, estreia a 13 de Novembro.


Distribuição Castello Lopes

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A surpresa emocionada de María Kodama na Exposição A Consistência dos Sonhos

Quando María Kodama acabou de percorrer a Sala de Pintura do Rei D. Luís do Palácio da Ajuda não escondeu a emoção, talvez porque, tão habituada que está a saber que palavras e génio são matéria suficiente para erguer monumentos literários, conseguiu captar, de forma singular, a riqueza contida nos documentos mostrados na Exposição, a vida que encerram, sim, mas também um aroma especial como se de uma respiração se tratasse, um latejar que habita páginas de há sessenta anos, inéditas, até que agora podem ser finalmente contempladas num caderno de apontamentos, num sonho frustrado ou num encontro glorioso, num contrato que diz «sim, publicamos» ou na pintura que viu o mundo mudado porque assim o narrava o livro que serviu de inspiração a Rogério Ribeiro... A exposição sobre José Saramago emocionou María Kodama porque ela sentiu, passo a passo, o esforço de escrever, a alegria de ter escrito, a suspeita de que continuaremos a ler um autor que parece ter já o seu lugar na história e que no entanto toma café, ao cair da tarde, sentado com os amigos no jardim da sua casa lisboeta...
María Kodama é uma leitora privilegiada. Aprendeu com Borges anglo-saxão e islandês para poder ler textos fundacionais de literaturas magníficas. Lê continuamente, quando viaja e quando se encontra em qualquer canto do mundo. Lê e sabe entender a vida das palavras. Lê, vê, e vendo incorpora no seu ser mais experiências que irão reforçar a sua capacidade de emocionar-se. Por isso saiu emocionada do Palácio da Ajuda quando, em silêncio, descia as escadas. Por isso, quando o ministro português da Cultura, José António Pinto Ribeiro, se aproximou para saudá-la, elogiou a Exposição com palavras breves mas rotundas, e dizia «maravilhosa» e os olhos brilhavam de forma contagiosa e as mãos, entrelaçando-se uma e outra vez, expressavam que algo íntimo e profundo havia sucedido nas salas da Exposição. E sim, a comoção chegou e instalou-se em María Kodama quando, depois de ter visto originais, a semente de uma vida, o tempo de silêncio, as tentativas, o esforço de escrever o memorial de um convento que tanto trabalho deu, o convento e o livro, depois da invenção de uma vida mais a Pessoa-Reis, depois de ter visto a reconstrução da humildade com que o escritor escreve, depois disso, María Kodama viu uma agenda escrita com uma data e um nome. Dia 14 de Junho de 1986. Saramago tinha assinalado esse dia porque nesse dia conheceu a que viria a ser sua mulher. María teria assinalado esse dia porque nesse dia morreu Jorge Luis Borges que foi, e continua a ser, o centro da sua vida. «Houve uma substituição», disse María mais tarde. Não: essas substituições não existem, ainda que aconteçam circunstâncias que reconfortam e que podem ser apreciadas por aqueles que, como María, fazem da força da sensibilidade o empurrão necessário para cruzar a vida.
No dia 20 de Junho A Consistência dos Sonhos atingiu a maioridade porque, uma vez mais, revelou emoções ocultas. A Exposição cruzou um equador que os leitores atentos saberão apreciar. Quem sabe não seria de colocar, junto à folha que assinala o dia 14 de Junho, uma flor fresca: para Borges e para María Kodama, que tanto nos ensinam e a quem tanto amamos.

La sorpresa emocionada de María Kodama en la Exposición La Consistencia de los sueños

Cuando María Kodama acabó de recorrer la sala Dom Luis del Palacio de Ayuda no disimuló su emoción, quizá porque ella, tan habituada a saber que palabras y genio son materiales suficiente para levantar monumentos literarios, pudo percibir, de forma singular, la riqueza contenida en los documentos que se muestran en la exposición, la vida que encierran, sí, pero también un aroma especial que es como una respiración interior, un latido que habita en páginas de hace sesenta años, inéditas hasta que ahora por fin pueden ser miradas, en un cuaderno de notas, en un sueño frustrado o en un encuentro glorioso, en un contrato que dice "sí, publicamos" o en la pintura que vio mudado el mundo porque así lo contaba el libro que le sirvió de inspiración a Rogério Ribeiro... A María Kodama le emoción la exposición sobre José Saramago porque sintió, paso a paso, el esfuerzo de escribir, la alegría de haber escrito, la sospecha de que seguiremos leyendo a un autor que parece ya estar instalado en la historia y sin embargo toma café a la caída de la tarde, sentado con amigos en el jardín de su casa lisboeta...
María Kodama es una lectora privilegiada. Aprendió con Borges anglosajón e islandés para leer textos fundacionales de literaturas magníficas. Lee siempre, cuando viaja y cuando está en cualquier rincón del mundo. Lee y sabe entender la vida de las palabras. Lee, ve, y viendo, incorpora experiencias a su ser, más experiencias para fortalecer su capacidad de emoción. Por eso iba emocionada del Palacio de Ayuda cuando, en silencio, bajaba las escaleras. Por eso, cuando el Ministro de Cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, se acercó a saludarla, elogió la exposición con palabras breves aunque rotundas, decía "maravillosa" y los ojos le brillaban de forma contagiosa y las manos, entrelazándose una y otra vez, expresaban que algo íntimo y profundo había sucedido en la sala de exposiciones. Y sí, la conmoción vino y se instaló en María Kodama cuando, tras haber visto originales, la simiente de una vida, el tiempo de silencio, los tanteos, el esfuerzo de escribir el memorial de un convento que tanto trabajo dio, el convento y el libro, después de haberle inventado una vida más a Pessoa - Reis, después de haber visto la reconstrucción de la humildad con que el escritor escribe, después de eso, María Kodama vio una agenda escrita, con una fecha y un nombre. Era el 14 de junio de 1986. Saramago tenía señalado ese día porque conoció a la que iba a ser su mujer. María tenía señalado ese día porque murió Jorge Luis Borges, que había sido, y sigue siendo, el centro de su vida. "Hubo un relevo", dijo María más tarde. No: no existen esos relevos, aunque sí se dan circunstancias que reconfortan y que pueden ser apreciadas por quienes, como María, hacen de la fuerza de la sensibilidad el empuje necesario para cruzar la vida.
"La consistencia de los sueños" el 20 de junio alcanzó la mayoría de edad porque, una vez más, desveló emociones ocultas. La exposición cruzó un ecuador que los lectores atentos sabrán apreciar. Quizá habría que poner, junto a la hoja que señala el 14 de junio, una flor fresca: para Borges y María Kodama que tanto nos enseñan y a quienes tanto amamos.


Pilar del Río

Última hora - A Maior Flor do Mundo premiada em Chicago

A Maior Flor do Mundo venceu o Prémio de Melhor Argumento no Festival de Curtas-Metragens de Chicago. Na selecção oficial, efectuada a partir de mais de duzentos filmes, figuraram trabalhos de diferentes países, entre documentários e obras de ficção. A Maior Flor do Mundo vê assim reconhecida a sua qualidade, destacando-se o facto de ser o único filme de animação a vencer um Prémio no Festival.
O filme pode ser visto na exposição A Consistência dos Sonhos, patente no Palácio da Ajuda até dia 27 de Julho.
O DVD encontra-se disponível através da Fundação José Saramago.

Kodama entre o génio de Borges e as perguntas geniais de Saramago

Por Isabel Coutinho, Público

Palestra-colóquio ao final da tarde de sexta-feira, em Lisboa

José Saramago revelou-se um óptimo entrevistador. María Kodama, a última companheira de Jorge Luis Borges, riu-se às gargalhadas e lá foi respondendo às perguntas sérias, íntimas e prosaicas do Nobel português. "Como é que Borges dizia que te queria? Explica-nos, explica-nos!"
Já José Saramago tinha lido pela primeira vez o poema Elegia (1963), de Jorge Luis Borges, e estava a dizer para a assistência - que quase encheu o auditório da Biblioteca Nacional, sexta-feira à tarde em Lisboa -, que se tratava de "um belo poema, quase uma autobiografia", quando a sua mulher, Pilar del Río, irrompeu pelo palco vinda da plateia. "É um poema belíssimo mas ninguém ouviu nada", disse-lhe, enquanto ajustava os microfones em cima da mesa. O prémio Nobel da Literatura ainda balbuciou que alguém tinha ido mexer no seu microfone, mas Pilar del Río virou-se para os oradores e avisou: "Para todos e para sempre, o microfone tem que estar em frente à boca!" A plateia desatou às gargalhadas. "Pois", afirmou Saramago. "É a sua experiência de rádio", justificou-se perante os seus companheiros de mesa, que eram María Kodama - escritora, tradutora, companheira de Jorge Luis Borges por mais de vinte anos - e Carlos da Veiga Ferreira, o editor da Teorema, onde estão publicadas em português as Obras Completas do escritor argentino que morreu em 1986. "E então passemos a ler outra vez o poema porque não perdemos nada com isso", rematou o autor de Ensaio sobre a Cegueira. "Oh, destino, o de Borges,/ ter navegado pelos diversos mares do mundo/ ou pelo único e solitário mar de nomes diversos (...)/ e não ter visto nada ou quase nada/ senão o rosto de uma rapariga de Buenos Aires (...)", deu-se assim o mote para a palestra-colóquio E se falássemos de Borges?, uma conversa entre a viúva e o Nobel, organizada pela Fundação José Saramago, a que se seguirão outras dedicadas a escritores. No dia 10 de Julho, no Teatro Nacional de São Carlos, falar-se-á de Jorge de Sena. "Não achas que os leitores ficam prisioneiros dos contos de Borges?" - Saramago tem a intuição de que o acesso à obra do escritor argentino se faz pela leitura dos contos e que às vezes os leitores ficam só por aí. Esquecem que Borges foi um grande poeta. Kodama concordou. O que deu fama internacional a Borges foi a tradução dos seus contos e da sua prosa. Mas, revelou, "ele sempre se sentiu poeta". Mesmo a sua prosa é "uma prosa poética, tem um ritmo especial". Ele preferia ser recordado como poeta e não como contista. Mas como era muito exigente consigo próprio e perfeccionista, sentia uma nostalgia, pensava que nunca ia conseguir chegar a escrever "o poema". "Eu como leitora acho que muitas vezes o conseguiu, mas ele não o sentia da mesma maneira", concluiu María.
Borges começou por ser poeta. Mas a determinada altura teve um acidente. Magoou-se na cabeça numa janela aberta que estava a ser pintada, quando ia para casa de uma amiga, e sofreu uma septicemia. Na época não havia antibióticos, ficou às portas da morte, com febre e pesadelos. Quando melhorou, "milagrosamente", teve medo de ter perdido a capacidade intelectual, a capacidade para escrever poemas. "Então decide que vai escrever um conto porque se fracassasse não sentiria que estava louco ou que tinha perdido essa capacidade." Escreve então o seu conto Pierre Menard, autor de 'Quixote' (onde está a frase "Não queria compor outro Quixote - o que é fácil - mas 'o' Quixote"). A partir daí entra num longo período em que se dedica à prosa, aos contos, e escreve ensaios e crítica literária para jornais. "Quando perde a visão e percebe que lhe é difícil continuar a escrever, vai retomar a poesia. Porque era mais fácil decorar o texto por causa da rima, já que não podia passar ao papel imediatamente o que estava a pensar. "Começou pela poesia, por causa do acidente escreve prosa e mais tarde, por causa da cegueira, regressa à poesia. Na última fase, "já seguro de si", mistura as duas coisas, poesia e prosa. Como era Borges na vida de todos os dias?, quis saber Saramago. "É que Borges era um génio - e continua a ser apesar de já não estar entre nós - como é que se comporta um génio na vida de todos os dias?" A esta "questão prosaica" o escritor quis que Kodama respondesse francamente. Aprendia-se muito, disse ela, era notória a profundidade e diversidade do seu conhecimento. Tinha um enorme sentido de humor e contava muitas histórias da sua avó inglesa, que ele adorava. "Era um ser encantador, divino. Por vezes eu tentava que os meus colegas de turma fossem assistir às aulas de línguas anglófonas que ele me dava. Eles diziam-me: 'Não! Como queres que vamos contigo, ele é velho, os labirintos, os espelhos, por que é que não vens mas é sair connosco?' Eu respondia-lhes: 'Sim, ele é os labirintos, os espelhos, o que vocês quiserem, mas paralelamente a isso é uma pessoa divertidíssima com quem podemos passar momentos muito agradáveis e descobrir uma quantidade de coisas, intelectuais e não só, através do que nos conta." Apesar da sua sabedoria, disse Kodama, as pessoas não se sentiam intelectualmente inferiores a Borges. Sabia guiar as conversas. "Tinha muita consideração pelos outros. E tinha um sentido ético e de delicadeza no trato. Na sua obra também se reflecte isso: tudo está dito, mas tudo é dito de uma maneira especial."
Não há palavras para descrever o ar matreiro do escritor português quando anunciou a María Kodama que lhe ia colocar duas questões "muito íntimas". Durante toda conversa, que durou mais de uma hora, Saramago fez sempre perguntas interessantes, foi dizendo também aquilo que pensava sobre a obra do autor argentino, não fugiu a perguntas difíceis como a sua ligação com a ditadura. Estava visivelmente bem-disposto - a longa doença do ano passado parece estar finalmente a ficar para trás -, com 14 quilos a mais e a recuperar pouco a pouco a massa muscular. "Estavas realmente interessada em aprender inglês antigo ou foste aprender inglês antigo para conhecer Borges?", foi a primeira. Seguiu-se a segunda: "Como é que Borges dizia que te queria?... Explica-nos, explica-nos!" Foi então quando Kodama tinha cinco anos que teve aulas com uma professora de inglês que utilizava um método de lhe ler os textos no original e depois traduzir em espanhol. Leu-lhe um poema em inglês de Borges, do qual Kodama não entendeu nada mas sentiu que havia algo ali que a fazia sentir próximo dele (a solidão). Aos 12 anos, um amigo do pai, que era fanático de Borges, levou-a a ouvir uma conferência do escritor e ela impressionou-se com a sua timidez. Anos depois, já no colégio, viu Borges do outro lado da rua. Vai ter com ele: "Conheci-o quando era uma miúda." Ele riu-se: "Claro, agora você é grande. Em que trabalha?" Ela respondeu-lhe: "Estou a terminar o secundário." Quer estudar o inglês arcaico?, pergunta-lhe ele. "Shakespeare?", arrisca ela. "Não, muito anterior, século X." "Então se calhar é complicado", diz-lhe ela mas ele convence-a, dizendo que vão estudar juntos. Passam a encontrar-se em cafés de Buenos Aires, ele aparecia com os dicionários debaixo do braço. "Divertíamo-nos muitíssimo". E a vida foi-lhes dando outra história que terminou, realmente, "em amor". "E a segunda pergunta?", insistia José Saramago. Kodama ria-se ao início e depois já estava às gargalhadas. "Que palavras utilizava para dizer que te queria...", continuava o autor português. "Isso é importantíssimo. Posso não ser um bom escritor, mas a fazer perguntas sou um génio!", brincou o Nobel, que assim pôs a sala inteira a rir à gargalhada. María e Jorge usavam vários nomes, a maior parte ligados à literatura. "Um desses nomes era tirado de um conto que ele me tinha dedicado em segredo e que se chama Ulrica (in O Livro da Areia). Quis gravá-lo no túmulo em Genebra e em lugar de María Kodama e de Borges coloquei o epitáfio 'De Ulrica a Javier Otárola', porque eram nomes muito especiais para nós. Ulrica vinha também um pouco da Elegia de Marienbad, de Goethe, que ele me recitava em alemão. Ulrike von Levetzow era o nome da jovem amante de Goethe e quando ele fazia amor com ela contava as sílabas nas suas costas, acariciando-as com a mão. Bem, já está dito." E María Kodama e José Saramago prosseguiram com outro assunto antes que a conversa ficasse mais complicada.