domingo, 29 de junho de 2008

Fundação José Saramago - Primeiro aniversário

Nascemos há um ano, quando José Saramago assinou uma declaração que transmitia o impulso de que necessitávamos para nos constituirmos numa Fundação que se propunha objectivos públicos, claros e concretos. Logo tivemos de crescer, ter casa, documentos que dessem fé da nossa existência, em resumo, dar à vida os sonhos que tinhamos vivido durante o longo período de gestação que antecedeu o acto criador.
Agora já somos crescidos, temos um ano de vida e umas quantas experiências acumuladas:
Cumprimos as obrigações básicas, em cada manhã abrem-se as portas da sede da Fundação em Lisboa e ali, com Saramago trabalhando no seu escritório, articulam-se sonhos e possibilidades, a realidade que exige concretização e a necessária dose de entusiasmo sem a qual nada é possível.
Inaugurou-se a sede local de Azinhaga, um cibercafé-biblioteca-livraria para os conterrâneos de Saramago e para os que venham percorrer uma paisagem que já lhes é familiar por a terem lido em páginas memoráveis.
Abriu-se a biblioteca de Lanzarote, lugar de estudo e de intercâmbio de ideias. Os “Encontros na Biblioteca”, que Maria Kodama inaugurou, são uma das actividades principais a realizar periodicamente, mas não se pode esquecer também o trabalho de investigação que foi necessário realizar para que a Fundação César Manrique pudesse organizar a exposição “A consistência dos sonhos”, obra magnífica que, uma vez mais, a Fundação José Saramago reconhece e agradece.
Organizaram-se concertos em Lisboa, Madrid e Lanzarote, editou-se um livro de memórias que, por sua vez, inaugura uma linha gráfica, receberam-se alunos que querem saber que vem a ser isso de ler, atenderam-se estudiosos de vários continentes, pessoas interessadas no misterioso mundo das letras e dos autores, receberam-se projectos, obras de ensaio que requeriam fontes para avançarem e as encontraram na Fundação, e, sobretudo, convivimos com a matéria dos sonhos durante um ano.
Um ano não é muito, embora para a Fundação José Saramago seja tudo. Agora é o tempo da maturidade, apresentamo-nos
neste “sítio” electrónico, que será, como já o era o “blog”, um lugar de encontro de quem pela Literatura, sim, mas também pelos Gandes Direitos Universais, sintam predilecção e urgência de manifestar-se e realizar.
Às Universidades que, como a de Granada, em Espanha, e a Católica de Córdoba, em Argentina, para citar dois exemplos destacados, se somaram ao nosso empenhamento. Obrigado. Continuaremos a viajar juntos.
Aos Ministérios de Cultura de Portugal e Espanha, o nosso reconhecimento.
À Fundação César Manrique, nossos mestres, um abraço.
Aos pintores que colaboraram com a sua obra, aos escritores que estiveram, aos amigos que têm acompanhado a nossa vida neste primeiro ano e que ofereceram o melhor que tinham, o seu interesse e dedicação, todo o nosso afecto e a promessa de que não desmaiaremos quando o frio chegar.
No dia 10 de Julho, em Lisboa, celebraremos o primeiro aniversário. Será no Teatro de São Carlos e ao redor de Jorge de Sena e da sua magnífica obra de poeta, ficcionista e ensaísta. Para ouvir de novo a respiração da poesia e da música que a poesia contém ou se contém nela. O acto tem um título, “Jorge de Sena – Um regresso”, talvez porque queremos chegar, uma vez mais, ao coração de um autor português que, morreu fora da sua terra, mas dentro do seu idioma. Acto este em que será reclamado de todas as formas que a capacidade criadora dos sentimentos seja capaz de expressar.
E, por fim, para Rogério Ribeiro e Bartolomeu Cid dos Santos o nosso comovido carinho: foram os primeiros a retratar a obra de Saramago, os primeiros a morrer, são os mais amados dos nossos corações.

Nacimos ahora hace un año, cuando José Saramago firmó una declaración que transmitía el aliento que necesitábamos para constituirnos en una Fundación con objetivos públicos, claros y concretos. Luego necesitamos crecer, tener casa, documentos que dieran fe de existencia, en definitiva, poner en la vida los sueños acumulados mientras el periodo de gestación, tan largo.
Ahora ya somos mayores, tenemos un año de vida y unas cuantas experiencias acumuladas:
Porque hemos hecho los deberes, cada mañana abre sus puertas la sede de la Fundación en Lisboa y desde ella, con Saramago trabajando en su escritorio, se trata de articular sueños y posibilidades, la realidad que exige concreción y la necesaria dosis de entusiasmo sin la cual nada es posible.
Se inauguró la sede de Azinhaga, un cibercafé- biblioteca - librería para los coterráneos de Saramago y para los que van a recorrer un paisaje que ya es familiar a base de haberlo leído antes en páginas memorables.
Se abrió la biblioteca de Lanzarote, lugar de estudio y de intercambio de ideas. Los "Encuentros en la biblioteca" que inauguró María Kodama son una de las actividades periódicas y señeras, pero está también el trabajo de investigación, el que fue necesario realizar para que la Fundación César Manrique pudiera organizar la exposición "La consistencia de los sueños", obra magnifica que, una vez más, la Fundación Saramago reconoce y agradece.
Se han organizado conciertos en Lisboa, Madrid y Lanzarote, se ha editado un libro de memorias que, a su vez, inaugura una línea gráfica, se han recibido a escolares que quieren saber qué es esto de leer, tanto en Lisboa como en Lanzarote, se han atendido a estudiosos de varios continentes, a personas interesadas en el misterioso mundo de las letras y los autores, se han recibido proyectos, obras de ensayo que requirieron de fuentes para avanzar y las encontraron en la Fundación, y, sobre todo, se ha convivido con la materia de los sueños minuto a minuto durante un año.
Un año no es mucho, aunque para la Fundación José Saramago es todo. Ahora, en el tiempo de la madurez, nos presentamos
en este sitio electrónico, que será, como ya lo era el blog, un lugar de encuentro de quienes por la Literatura, sí, y también por los Grandes Derechos Universales sienten predilección y la urgencia de manifestarse y de realizar.
A las Universidades que, como la de Granada en España o la Católica de Córdoba, en Argentina, por citar dos ejemplos destacados, se han sumado a nuestro empeño, gracias y seguiremos viajando juntos.
A los Ministerios de Cultura de Portugal y España, nuestro reconocimiento.
A la Fundación César Manrique, nuestros maestros, un abrazo.
A los pintores que colaboraron con su obra, a los escritores que han estado, a los amigos que han seguido la vida este primer año y que han ofrecido lo mejor que tenían, su interés y dedicación, todo el afecto y la promesa de no desmayar cuando llegue el frío.
El 10 de julio, en Lisboa, celebraremos el primer aniversario. Será en el Teatro San Carlos y alrededor de Jorge de Sena y a su magnífica obra. Para oír de nuevo la respiración de la poesía y de la música que la poesía contiene o por ella es contenida. El acto tiene un título, "Jorge de Sena - Un regreso" , quizá porque queremos llegar, una vez más, al corazón del autor portugués que murió fuera de su tierra pero dentro de su idioma. En el que será reclamado de todas las formas que la capacidad creadora de los sentamientos sea capaz de expresar. Y por fin, para Rogerio Ribeiro y Bartolomeu Cid dos Santos nuestro cariño emocionado: fueron los primeros en retratar la obra de Saramago, los primeros en morir, son los más amados de nuestros corazones.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Cartaz do filme Blindness no Japão

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal

Já está disponível o site da Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal. Este site foi apresentado no âmbito da exposição A Consistência dos Sonhos, patente no Palácio da Ajuda até ao próximo dia 27 de Julho. Do espólio fazem parte manuscritos, agenda, correspondência de José Saramago trocada com outros escritores portugueses. Com este site a Biblioteca Nacional, e o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, dão mais um contributo para o conhecimento dos processos de construção da obra de José Saramago e para o seu enquadramento no panorama cultural português e internacional.
Um espaço a visitar!

Aqui fica a nota explicativa sobre os conteúdos disponibilizados:

«O sítio Web da Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal assenta em duas vertentes: na disponibilização em linha de originais e na edição do inventário do acervo. Ficam acessíveis à investigação os manuscritos do autor que integram o fundo, bem como o testemunho da sua consagração como Escritor de renome internacional - o diploma do Prémio Nobel da Literatura de 1998. Fica também disponível o retrato integral da colecção, o inventário, que, organizando os documentos em função da sua tipologia e autoria, informa sobre a especificidade das peças.

O fundo foi constituído em 1994 por generosa dádiva de José Saramago, anunciada, em carta de 22 de Março, nos seguintes termos: Um dia destes, com vagar, vou dar uma volta aos meus desordenados arquivos. Há cartas, papéis, manuscritos que não tenho o direito de conservar como coisa minha, pois na verdade pertencem a todos. A primeira parte da documentação, entregue pouco depois, integra as séries Correspondência – cartas trocadas com Adolfo Casais Monteiro, José Rodrigues Miguéis e recebidas de Massaud Moisés – e Manuscritos de terceiros, onde se destacam obras de J. R. Miguéis. Posteriormente, em 1998, inicia a entrega de documentação aqui classificada como Manuscritos do Autor. No ano seguinte a colecção é acrescida com o diploma já referido – classificado como Documento biográfico - e a restante documentação das séries de Correspondência.

No que diz respeito a este último tipo de documentos, o inventário organiza-os por autor ou destinatário, regista as datas limite, os locais de emissão predominantes, o número total de documentos e, quando necessário, outra informação pertinente que permita ao investigador estabelecer a relação entre outras peças que integram o acervo. Complementa-se a descrição com uma breve nota sobre o assunto preponderante das missivas. Em termos gerais, trata-se de correspondência de personalidades da cultura portuguesa, situada entre 1952 e 1983, e reflecte, sobretudo, a actividade de José Saramago na Editorial Estúdios Cor, no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias

Fátima Lopes
Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Saramago apresenta prosa «límpida, quase transparente» de Mia Couto

Uma prosa «límpida, quase transparente», onde a naturalidade dos encontros chega a ser sedutora, preenche, segundo José Saramago, as páginas da mais recente obra de Mia Couto, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, ontem apresentada em Lisboa.

Escrito num «assalto pelo sentimento do tempo», como o próprio moçambicano descreve, o romance conta a história de um jovem médico português que parte para Vila Cacimba, em Moçambique, em busca de uma mulata por quem se apaixonou sob a «luz branca» de Lisboa. Em terras africanas, o médico depara-se com mistérios e histórias nunca contadas e acaba por partir numa viagem de palavras e reflexões sobre o próprio sentido da vida, durante a qual se confronta com o pensamento de que «somos donos do tempo apenas quando o tempo se esquece de nós». Durante a apresentação da obra, numa livraria da capital, Mia Couto explicou que o tempo - ou a falta dele - era um assunto que precisava e ainda precisa de resolver mas que, não sendo «resolvível», tem de ser transformado em história, em poesia, em «não assunto». «O estilo a que geralmente um escritor é associado pode ser também uma prisão e pensei que me apetecia desfazer essa amarra. Apetecia-me não saber como escrever, então mergulhei no vazio», conta o escritor, que assinou já cerca de vinte títulos, entre romances, contos, poesia e crónicas. Mia Couto tentou mas José Saramago garante que não conseguiu. Para o Nobel, não existem diferenças significativas no estilo de Venenos de Deus, Remédios do Diabo e dos restantes livros do seu amigo e «camarada de trabalho», o que acaba por ser uma sorte para quem, como ele, admira todo o percurso do escritor moçambicano. «Acho que ele fez o mesmo - e isso parece-me uma virtude - contando outra história», afirmou Saramago. «Estou a gostar do livro, a gostar muito. Tem uma prosa límpida, quase transparente. Encanta-me e quase me seduz a forma como o Mia desenvolve situações que envolvem encontros. É tudo tão natural», descreveu. José Saramago referiu que Mia Couto foi um dos escritores que melhor soube reagir às mudanças trazidas pelo 25 de Abril, respondendo com uma enorme «liberdade criativa» às dúvidas que então surgiram entre os autores, habituados a enfrentar a censura.

Jornal Sol

terça-feira, 24 de junho de 2008

Marisa Paredes visitou A Consistência dos Sonhos

A actriz espanhola Marisa Paredes, um dos rostos emblemáticos do cinema espanhol, viajou até Lisboa para ver a Exposição A Consistência dos Sonhos, em exibição no Palácio Nacional da Ajuda, nesta cidade. Marisa Paredes, juntamente com a italiana Laura Morante e a portuguesa Maria de Medeiros, protagonizou um espectáculo, representado em vários países europeus, Itália, Espanha, Grécia, Portugal, entre outros, em que cada actriz dava voz, na sua própria língua, às mulheres dos livros de Saramago. O espectáculo, de singular beleza e austeridade cénica, foi produzido pela Sete Sóis, Sete Luas, uma produtora italiana que tem como objectivo aproximar as diferentes culturas europeias em espaços afastados dos circuitos comerciais mas aonde a curiosidade e o interesse se manifestam de forma indiscutível. Marisa Paredes foi acompanhada na sua visita à Exposição pelo marido, o director da Filmoteca Nacional de Espanha, José María Prado, autor da foto, e por Pilar del Río. José María Prado é também autor de um retrato fotográfico de José Saramago, de grandes proporções, o maior da Exposição, que pode ver-se na Sala de Pintura do Rei D. Luís do Palácio da Ajuda.

La actriz española Marisa Paredes, uno de los rostros emblemáticos del cine español, viajó a Lisboa para ver la Exposición "La consistencia de los sueños" que se exhibe en el Palacio de Ajuda de Lisboa. Marisa Paredes, junto con la italiana Laura Morante y la portuguesa María de Medeiros, protagonizó un espectáculo, representado en varios países europeos, como Italia, España, Grecia, Portugal entre otros, donde cada actriz daba voz, en su propio idioma, a las mujeres de los libros de Saramago. El espectáculo, de singular belleza y austeridad escénica, estuvo producido por "Sete Sois, Sete Luas", productora italiana que tiene como objetivo acercar las distintas culturas europeas en espacios alejados de los circuitos comerciales pero donde la curiosidad y el interés se manifiestan de forma indiscutible. Marisa Paredes estuvo acompañada en su visita a la exposición por su marido, el director de la Filmoteca Nacional de España José María Prado, autor de la fotografía, y por Pilar del Río. José María Prado es también autor de un retrato fotográfico de José Saramago, de grandes proporciones, el mayor de la exposición, que puede verse en la sala Rey Dom Luis del palacio de Ajuda.

Blindness já tem data de estreia

O filme Blindness, adaptação do romance de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, realizado por Fernando Meirelles, estreia a 13 de Novembro.


Distribuição Castello Lopes

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A surpresa emocionada de María Kodama na Exposição A Consistência dos Sonhos

Quando María Kodama acabou de percorrer a Sala de Pintura do Rei D. Luís do Palácio da Ajuda não escondeu a emoção, talvez porque, tão habituada que está a saber que palavras e génio são matéria suficiente para erguer monumentos literários, conseguiu captar, de forma singular, a riqueza contida nos documentos mostrados na Exposição, a vida que encerram, sim, mas também um aroma especial como se de uma respiração se tratasse, um latejar que habita páginas de há sessenta anos, inéditas, até que agora podem ser finalmente contempladas num caderno de apontamentos, num sonho frustrado ou num encontro glorioso, num contrato que diz «sim, publicamos» ou na pintura que viu o mundo mudado porque assim o narrava o livro que serviu de inspiração a Rogério Ribeiro... A exposição sobre José Saramago emocionou María Kodama porque ela sentiu, passo a passo, o esforço de escrever, a alegria de ter escrito, a suspeita de que continuaremos a ler um autor que parece ter já o seu lugar na história e que no entanto toma café, ao cair da tarde, sentado com os amigos no jardim da sua casa lisboeta...
María Kodama é uma leitora privilegiada. Aprendeu com Borges anglo-saxão e islandês para poder ler textos fundacionais de literaturas magníficas. Lê continuamente, quando viaja e quando se encontra em qualquer canto do mundo. Lê e sabe entender a vida das palavras. Lê, vê, e vendo incorpora no seu ser mais experiências que irão reforçar a sua capacidade de emocionar-se. Por isso saiu emocionada do Palácio da Ajuda quando, em silêncio, descia as escadas. Por isso, quando o ministro português da Cultura, José António Pinto Ribeiro, se aproximou para saudá-la, elogiou a Exposição com palavras breves mas rotundas, e dizia «maravilhosa» e os olhos brilhavam de forma contagiosa e as mãos, entrelaçando-se uma e outra vez, expressavam que algo íntimo e profundo havia sucedido nas salas da Exposição. E sim, a comoção chegou e instalou-se em María Kodama quando, depois de ter visto originais, a semente de uma vida, o tempo de silêncio, as tentativas, o esforço de escrever o memorial de um convento que tanto trabalho deu, o convento e o livro, depois da invenção de uma vida mais a Pessoa-Reis, depois de ter visto a reconstrução da humildade com que o escritor escreve, depois disso, María Kodama viu uma agenda escrita com uma data e um nome. Dia 14 de Junho de 1986. Saramago tinha assinalado esse dia porque nesse dia conheceu a que viria a ser sua mulher. María teria assinalado esse dia porque nesse dia morreu Jorge Luis Borges que foi, e continua a ser, o centro da sua vida. «Houve uma substituição», disse María mais tarde. Não: essas substituições não existem, ainda que aconteçam circunstâncias que reconfortam e que podem ser apreciadas por aqueles que, como María, fazem da força da sensibilidade o empurrão necessário para cruzar a vida.
No dia 20 de Junho A Consistência dos Sonhos atingiu a maioridade porque, uma vez mais, revelou emoções ocultas. A Exposição cruzou um equador que os leitores atentos saberão apreciar. Quem sabe não seria de colocar, junto à folha que assinala o dia 14 de Junho, uma flor fresca: para Borges e para María Kodama, que tanto nos ensinam e a quem tanto amamos.

La sorpresa emocionada de María Kodama en la Exposición La Consistencia de los sueños

Cuando María Kodama acabó de recorrer la sala Dom Luis del Palacio de Ayuda no disimuló su emoción, quizá porque ella, tan habituada a saber que palabras y genio son materiales suficiente para levantar monumentos literarios, pudo percibir, de forma singular, la riqueza contenida en los documentos que se muestran en la exposición, la vida que encierran, sí, pero también un aroma especial que es como una respiración interior, un latido que habita en páginas de hace sesenta años, inéditas hasta que ahora por fin pueden ser miradas, en un cuaderno de notas, en un sueño frustrado o en un encuentro glorioso, en un contrato que dice "sí, publicamos" o en la pintura que vio mudado el mundo porque así lo contaba el libro que le sirvió de inspiración a Rogério Ribeiro... A María Kodama le emoción la exposición sobre José Saramago porque sintió, paso a paso, el esfuerzo de escribir, la alegría de haber escrito, la sospecha de que seguiremos leyendo a un autor que parece ya estar instalado en la historia y sin embargo toma café a la caída de la tarde, sentado con amigos en el jardín de su casa lisboeta...
María Kodama es una lectora privilegiada. Aprendió con Borges anglosajón e islandés para leer textos fundacionales de literaturas magníficas. Lee siempre, cuando viaja y cuando está en cualquier rincón del mundo. Lee y sabe entender la vida de las palabras. Lee, ve, y viendo, incorpora experiencias a su ser, más experiencias para fortalecer su capacidad de emoción. Por eso iba emocionada del Palacio de Ayuda cuando, en silencio, bajaba las escaleras. Por eso, cuando el Ministro de Cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, se acercó a saludarla, elogió la exposición con palabras breves aunque rotundas, decía "maravillosa" y los ojos le brillaban de forma contagiosa y las manos, entrelazándose una y otra vez, expresaban que algo íntimo y profundo había sucedido en la sala de exposiciones. Y sí, la conmoción vino y se instaló en María Kodama cuando, tras haber visto originales, la simiente de una vida, el tiempo de silencio, los tanteos, el esfuerzo de escribir el memorial de un convento que tanto trabajo dio, el convento y el libro, después de haberle inventado una vida más a Pessoa - Reis, después de haber visto la reconstrucción de la humildad con que el escritor escribe, después de eso, María Kodama vio una agenda escrita, con una fecha y un nombre. Era el 14 de junio de 1986. Saramago tenía señalado ese día porque conoció a la que iba a ser su mujer. María tenía señalado ese día porque murió Jorge Luis Borges, que había sido, y sigue siendo, el centro de su vida. "Hubo un relevo", dijo María más tarde. No: no existen esos relevos, aunque sí se dan circunstancias que reconfortan y que pueden ser apreciadas por quienes, como María, hacen de la fuerza de la sensibilidad el empuje necesario para cruzar la vida.
"La consistencia de los sueños" el 20 de junio alcanzó la mayoría de edad porque, una vez más, desveló emociones ocultas. La exposición cruzó un ecuador que los lectores atentos sabrán apreciar. Quizá habría que poner, junto a la hoja que señala el 14 de junio, una flor fresca: para Borges y María Kodama que tanto nos enseñan y a quienes tanto amamos.


Pilar del Río