segunda-feira, 7 de julho de 2008

Entrevista de Pilar del Río ao DN - 1.ª parte


Foi o livro 'Memorial do Convento' que fez Pilar del Río encontrar José Saramago em 1986. Desde então, ficou conhecida dos portugueses por ser capaz de fazer afirmações tão contundentes como as do escritor e partilhar do seu 'exílio'. Nesta entrevista, confessa-se "uma mulher indignada" que não perdoa sexismos gramaticais nem perguntas machistas

Há um ano que é presidente da Fundação José Saramago...
Presidenta!...

Presidenta?
Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.

Mas a palavra não existe!
Porque é que entre uma mulher e um animal tem primazia o género do animal? Porque dizem "Vêm os dois" se é uma mulher e um cão quem vem? Em vez de dizerem que não se pode dizer presidenta, mas ministra sim, solucionem essa injustiça e canalhice. Que os doutos académicos resolvam um conflito que tem séculos porque não têm sensibilidade para apreciar a questão ou nem se aperceberam. Por isso, justificam com leis gramaticais ou simplesmente silenciam e riem-se das pretensões da mulher porque se acham superiores. Em quê?

Ser presidenta da Fundação que tem o nome de Saramago é uma grande responsabilidade?
Sim...

Principalmente tendo em conta que José Saramago é um nome muito polémico em Portugal!
Não. Saramago não é um nome polémico em Portugal. Saramago é um dos três ou quatro portugueses mais amados que há em Portugal. Pode ser que em algum meio, com facilidades de acesso à comunicação social, não se goste de Saramago, mas Saramago também não gosta dessas pessoas. Saramago não é polémico, é muito amado.

Mas o nome Pilar também é muito polémico...
Não. O nome de Pilar não existe em Portugal. Por amor de Deus, dê-me essa alegria hoje, diga-me que sim! Minta-me! Não existe, não, não há polémica comigo porque não tenho repercussão pública.

Não concordo com isso!
Então, porque é que eu sou polémica?

Porque a maior parte dos portugueses a olham como a mulher que foi responsável por levar José Saramago para Espanha.
Não, foi o Governo de Cavaco Silva! Dê outra razão...

Por ter opiniões muito próprias e não ter qualquer problema em as afirmar.
Os inteligentes adoram encontrar personagens com opinião própria, os ignorantes é que não.

Não quer ser politicamente correcta?
Não.

Porquê?
Se a Igreja Católica não tem problemas em defender o que defende, de dizer que as pessoas têm de morrer sem cuidados paliativos e todas essas coisas que vão contra o senso comum...

É mais fácil lidar com os leitores portugueses ou com os leitores espanhóis?Os leitores são bons leitores em Portugal e em Espanha. Alguns jornalistas de alguma comunicação social têm um grande problema com o tamanho do seu ego - para não dizer o tamanho de outra coisa - e estão zangados porque não podem suportar que haja um ser que seja querido, transgressor, escreva bem e seja reconhecido. Mas este não é problema dos leitores, é de umas quantas pessoas que tentam criar opinião, só que a opinião pública não é o mesmo que a opinião publicada.

Considera que a imprensa em Portugal não é livre e serve os interesses de certos grupos?
Penso que a imprensa não é livre no mundo inteiro e cada dia existem mais grupos de pressão que, economicamente, têm de atender muitas frentes. Por isso há cada vez mais boletins informativos e menos jornais e todos respondem a um pensamento politicamente correcto porque o que sai daí não existe e os jornalistas também não oferecem resistência. Os jornalistas são de maneira geral muito mal pagos, salvo as estrelas, e têm muita dificuldade em ter opinião própria. Fazem o que pensam que irá agradar às suas empresas.

Também é jornalista. Sente essas pressões?
Sim, claro.

Consegue ser livre no programa na rádio?
Claro, eu consigo porque tenho muitíssimos anos de trabalho e porque sei que no final acabam sempre a dizer "são coisas da Pilar". Tratam de reduzir-me a uma anedota mais ou menos simpática, mas sei que sou a cereja sobre o bolo.

Pode dizer-se que é uma espécie de Manuela Moura Guedes, muito interventiva?
Não! Entre o jornalismo que faz Manuela Moura Guedes e o que eu faço há uma diferença porque são duas escolas. Ela intervém, interrompe, ataca. Eu deixo falar, porque parece-me que deixando falar a outra pessoa é quando ela se mostra em absoluto. Sou totalmente contra essa forma de fazer jornalismo que é perguntar, perguntar e isso parece-me frequente aqui em Portugal.

Porque é que ainda se mantém jornalista?
Porque aprendi a ler aos sete ou oito anos num jornal e desde então soube que queria ser jornalista. Gosto de contar as coisas e de ser uma intermediação entre o que acontece e as pessoas.

Ainda é de uma geração em que acha que a imprensa podia mudar o mundo?
Não, eu penso que são os seres humanos que têm capacidade para mudar o mundo e não os jornalistas. Não me contento em ser uma notária e fazer registos, nunca fiz um jornalismo neutro e enjoa-me, vomito no jornalismo neutro. Faço um jornalismo que assina a notícia, que vê o mundo de uma maneira determinada e não se conforma com dizer as coisas reconhecidas ou o que recebe das grandes agências. No entanto, o jornalismo não muda o mundo, mas os jornalistas não podem ser tão idiotas que reproduzam o discurso dos centros de poder como costumam fazer.

Fazem um jornalismo neutro?
Jornalismo neutro é o que supostamente aspiram fazer ao contar o que acontece. Um momento genial foi quando o Fidel Castro esteve no Porto e os jornalistas pareciam ser as pessoas mais democratas que existiam no mundo e avançaram contra o senhor Castro com várias perguntas, ao que ele respondeu com outras questões: quantos anos estudaram jornalismo? É uma carreira universitária? Cobram muito? E a resposta foi: "Estamos num país democrático."

Fidel Castro é democrata?
Na Europa, todos os governantes que governam para seu benefício próprio e não para o povo são democratas? Berlusconi é um democrata? Bush é um democrata? Quem massacra um povo como o do Iraque é um democrata? E vão dizer "mas Fidel não deixa sair as pessoas da ilha" e os do Iraque podem sair? E os portugueses que passam necessidades podem partir?

Sabe-se que aprecia muito Hugo Chávez...
Seguramente não é a pessoa com quem vou tomar café à tarde. Tanto faz que goste ou não, mas é a pessoa que está a pôr água e luz nas casas onde não havia, faz escolas e preocupa-se com a saúde. Aplaudo isso e está a repartir a riqueza de um país em que só se dividia a pobreza. Se nunca tivesse tido água em casa, nem luz, nem escola, nem saúde, votaria em Chávez todos os dias.

De que ideologia gosta?
Não é a que gosto, é a que tenho!

Em que partido se inscreveria?
Evidentemente que seria um partido de esquerda, mas não me pergunte qual porque hoje está tudo em mudança. Sempre fui votante do Partido Comunista até que o Partido Socialista (PSOE) me reclamou e eu respondi porque, em alguns momentos, por responsabilidade tinha de estar lá. Mas encontro-me muito bem com a Esquerda Unida de Llamazares apesar de ter votado no Partido Socialista em algumas ocasiões. Esta coisa de o voto ser secreto é outra história de que havia muito para falar. Quer-se secreto porque temos de ocultar a ideologia.

Mas hoje em dia vota em Zapatero?
Não. Voto em algumas ocasiões no PSOE e noutras na Esquerda Unida.

Em Portugal, votaria em qual?
Votaria Partido Comunista, mas nas eleições autárquicas votaria Manuel Maria Carrilho e depois António Costa. E porque não teria votado no Partido Comunista? Queria assegurar que os socialistas governassem, que fosse a esquerda.

Acredita que os partidos comunistas espanhol e português têm futuro nos tempos que correm? A esquerda tem sentido?
Sim, a esquerda é necessária mesmo que os grandes grupos de pressão digam que é uma ideia antiquada. Os "democratas" das grandes empresas e multinacionais acham e conseguem com o seu poder mediático impressionante que se considere que a esquerda não tem futuro, mas as pessoas têm cada vez mais necessidades, dívidas, angústia e problemas para viver e isto o patrão não irá solucionar.

E a União Europeia resolvê-los-á?
Sim... (ri-se) A União Europeia com Berlusconi e Sarkozy irá mesmo resolver muitos problemas...

E a Europa de Zapatero e Sócrates?
Não, porque vão ser isolados. Quem manda é essa coisa tão patética e ridícula chamada Berlusconi e do género e irão fazer o possível por isolar os partidos socialistas.

E Mariano Rajoy também é tipo Berlusconi?
Não, por Deus, não! Mariano Rajoy é uma pessoa de quem pessoalmente gosto mas representa interesses que não são os meus e tem posições perante o mundo que não são as minhas. Respeito-o.

O PP de Mariano Rajoy está num grande debate sobre se volta ao centro...
E por uma razão muito simples, é que supostamente nessa massa amorfa que é o centro é onde está a maior fonte de votos. Creio que ele quer vir a ser centro para refundar o que foi a UCD de Adolfo Suárez.

Mas está a ter grande contestação interna?
A Esperanza Aguirre é uma política e tem toda a legitimidade em querer ser a líder do Partido Popular. E como o diz claramente isso agrada-me.

As mulheres na política são como os homens, melhores ou piores?
As mulheres nunca podem ser iguais aos homens. Não são homens! E os homens não podem ser iguais às mulheres.

A actual ministra das Forças Armadas de Espanha voltou ao trabalho, seis semanas depois de ter sido mãe... Isso é ser diferente?
Não. Esteve grávida, regressou e o seu marido está de baixa a cuidar do menino.

Zapatero tem no Governo várias mulheres...
Porque é esperto. Porque é inteligente.

Só por essas razões?
Claro. Se vai fazer uma equipa de pessoas que trabalhem com ele - que não estejam a trabalhar para eles mesmos - e que trabalhem para a sociedade, então encontra nesse grupo de mulheres quem trabalhe para a sociedade e menos para elas mesmas. Estamos habituadas a ter de trabalhar para os filhos que temos.

Mas não considera que as mulheres trabalham melhor do que os homens?
Trabalhamos mais, melhor e em várias coisas de cada vez.

Essa possibilidade feminina de trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo é um mito...
Vamos lá ver, conte as coisas que já fez hoje. (Faço a lista e responde) Parece uma mulher (risos)

Como é que se porta o homem lá de casa?
Essa é outra história. Estamos a falar de um tempo distinto, um trabalho distinto, uma circunstância distinta. Não responde ao cânone.

Zapatero abraça todas as bandeiras gay. Para ganhar votos ou porque acredita?
Zapatero abraça as bandeiras que são direitos humanos e veio corrigir um défice democrático. E a legalização dos casamentos homossexuais é um défice democrático.

O casamento homossexual não a preocupa?Porquê?
É muito pior e mais complicado para a vida matrimonial os homens com barriga.

Nos EUA tivemos agora uma mulher e um afro-americano a disputar a presidência…
Um negro!

Um negro a disputar a presidência. Isso vai mudar alguma coisa nos Estados Unidos?
O que lamento é que a mulher não tenha ganho as primárias. Nos EUA, os negros conseguiram o direito a voto em todos os estados antes das mulheres. Esse senhor tem uma cor diferente mas agradava-me que fosse uma pessoa que fizesse uma mudança qualitativa e por muitíssimas razões que fosse Hillary Clinton. Porque está cheia de ira e de raiva e porque tem um domínio das coisas, mas as pessoas deixaram-se levar pelo discurso muito bonito e poético de Obama.

Entrevista de João Céu e Silva
Fotografia de Rui Coutinho
Publicada no Diário de Notícias de 06 de Julho de 2008

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A Consistência dos Sonhos. Uma visita virtual


A Fundação César Manrique acaba de lançar um mini-site no qual se pode fazer uma visita virtual fotográfica (com opção de planos, visualização de vídeos e leitura de documentos, por exemplo) à Exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos, quando esteve patente ao público em Lanzarote em Janeiro deste ano, e que está agora em exibição em Lisboa, no Palácio Nacional da Ajuda, até ao dia 27 do corrente mês. Eis o endereço em que podem consultá-la: vale a pena; o trabalho realizado pela Fundação César Manrique, que José Saramago qualificou de notável além de emocionante, é um exemplo do bom uso que as novas tecnologias permitem, que abrem caminho à investigação e também à poesia.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Concerto na Galeria do Rei Dom Luís I

No âmbito da exposição A Consistência dos Sonhos terá lugar no próximo dia 6 de Julho, pelas 19 Horas, um concerto pelo Quarteto Vianna da Motta, composto por António Figueiredo (1.º Violino), Rodrigo Gomes (2.º Violino), Hugo Diogo (Viola) e Irene Lima (Violoncelo). Será interpretado o Quarteto n.º 9, op. 117 de D. Shostakovich.
José Saramago assistirá ao concerto e, no final, estará disponível para assinar as suas obras.
A entrada é livre.



Organização: Ministério da Cultura, Instituto de Museus e Conservação e Teatro Nacional de São Carlos

Ficheiro musical: The Shostakovich Quartet, III Allegretto

terça-feira, 1 de julho de 2008

Curso livre em torno da obra de José Saramago no Palácio da Ajuda

No âmbito da exposição A Consistência dos Sonhos, patente na Galeria de Pintura do Rei Dom Luís I do Palácio da Ajuda, até ao próximo dia 27 de Julho, o Instituto dos Museus e Conservação (IMC) e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB) organizam um curso livre a decorrer nos dias 10 e 11 de Julho em torno da obra do escritor, abordando aspectos variados na obra de Saramago.

O programa é o seguinte:

10 de Julho

11.30 - Maria Isabel Rocheta
12.15 - Dialogismo e encontro de culturas em História do Cerco de Lisboa


14.30 - José Manuel Mendes
15.15 - Entre romances: os Cadernos de Lanzarote


15.30 - Miguel Real
16.15 - Saramago e o romance histórico português

11 de Julho

11.30 - Paula Morão
12.15 - O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago: percurso na cidade de Lisboa

Almoço na Estufa real, Calçada da Ajuda

14.30 - Ana Paula Arnaut
15.15 - José Saramago: da (in)consistência da História à consistência dos sonhos

15.30 - José Manuel Mendes
16.15 - As palavras - Leitura de textos de José Saramago

Inscrições gratuitas até 7 de Julho:
saramago.expo@dglb.pt
Tel. - 21 798 21 43 ou 45
Fax - 21 798 21 41

Almoço na esplanada do restaurante Estufa Real (28€)
Jardim Botânico da Ajuda, Calçada da Ajuda
Inscrição prévia nos mesmos contactos

Ao clicar na imagem, pode ver o programa em tamanho real

Novo cartaz de Blindness

domingo, 29 de junho de 2008

Fundação José Saramago - Primeiro aniversário

Nascemos há um ano, quando José Saramago assinou uma declaração que transmitia o impulso de que necessitávamos para nos constituirmos numa Fundação que se propunha objectivos públicos, claros e concretos. Logo tivemos de crescer, ter casa, documentos que dessem fé da nossa existência, em resumo, dar à vida os sonhos que tinhamos vivido durante o longo período de gestação que antecedeu o acto criador.
Agora já somos crescidos, temos um ano de vida e umas quantas experiências acumuladas:
Cumprimos as obrigações básicas, em cada manhã abrem-se as portas da sede da Fundação em Lisboa e ali, com Saramago trabalhando no seu escritório, articulam-se sonhos e possibilidades, a realidade que exige concretização e a necessária dose de entusiasmo sem a qual nada é possível.
Inaugurou-se a sede local de Azinhaga, um cibercafé-biblioteca-livraria para os conterrâneos de Saramago e para os que venham percorrer uma paisagem que já lhes é familiar por a terem lido em páginas memoráveis.
Abriu-se a biblioteca de Lanzarote, lugar de estudo e de intercâmbio de ideias. Os “Encontros na Biblioteca”, que Maria Kodama inaugurou, são uma das actividades principais a realizar periodicamente, mas não se pode esquecer também o trabalho de investigação que foi necessário realizar para que a Fundação César Manrique pudesse organizar a exposição “A consistência dos sonhos”, obra magnífica que, uma vez mais, a Fundação José Saramago reconhece e agradece.
Organizaram-se concertos em Lisboa, Madrid e Lanzarote, editou-se um livro de memórias que, por sua vez, inaugura uma linha gráfica, receberam-se alunos que querem saber que vem a ser isso de ler, atenderam-se estudiosos de vários continentes, pessoas interessadas no misterioso mundo das letras e dos autores, receberam-se projectos, obras de ensaio que requeriam fontes para avançarem e as encontraram na Fundação, e, sobretudo, convivimos com a matéria dos sonhos durante um ano.
Um ano não é muito, embora para a Fundação José Saramago seja tudo. Agora é o tempo da maturidade, apresentamo-nos
neste “sítio” electrónico, que será, como já o era o “blog”, um lugar de encontro de quem pela Literatura, sim, mas também pelos Gandes Direitos Universais, sintam predilecção e urgência de manifestar-se e realizar.
Às Universidades que, como a de Granada, em Espanha, e a Católica de Córdoba, em Argentina, para citar dois exemplos destacados, se somaram ao nosso empenhamento. Obrigado. Continuaremos a viajar juntos.
Aos Ministérios de Cultura de Portugal e Espanha, o nosso reconhecimento.
À Fundação César Manrique, nossos mestres, um abraço.
Aos pintores que colaboraram com a sua obra, aos escritores que estiveram, aos amigos que têm acompanhado a nossa vida neste primeiro ano e que ofereceram o melhor que tinham, o seu interesse e dedicação, todo o nosso afecto e a promessa de que não desmaiaremos quando o frio chegar.
No dia 10 de Julho, em Lisboa, celebraremos o primeiro aniversário. Será no Teatro de São Carlos e ao redor de Jorge de Sena e da sua magnífica obra de poeta, ficcionista e ensaísta. Para ouvir de novo a respiração da poesia e da música que a poesia contém ou se contém nela. O acto tem um título, “Jorge de Sena – Um regresso”, talvez porque queremos chegar, uma vez mais, ao coração de um autor português que, morreu fora da sua terra, mas dentro do seu idioma. Acto este em que será reclamado de todas as formas que a capacidade criadora dos sentimentos seja capaz de expressar.
E, por fim, para Rogério Ribeiro e Bartolomeu Cid dos Santos o nosso comovido carinho: foram os primeiros a retratar a obra de Saramago, os primeiros a morrer, são os mais amados dos nossos corações.

Nacimos ahora hace un año, cuando José Saramago firmó una declaración que transmitía el aliento que necesitábamos para constituirnos en una Fundación con objetivos públicos, claros y concretos. Luego necesitamos crecer, tener casa, documentos que dieran fe de existencia, en definitiva, poner en la vida los sueños acumulados mientras el periodo de gestación, tan largo.
Ahora ya somos mayores, tenemos un año de vida y unas cuantas experiencias acumuladas:
Porque hemos hecho los deberes, cada mañana abre sus puertas la sede de la Fundación en Lisboa y desde ella, con Saramago trabajando en su escritorio, se trata de articular sueños y posibilidades, la realidad que exige concreción y la necesaria dosis de entusiasmo sin la cual nada es posible.
Se inauguró la sede de Azinhaga, un cibercafé- biblioteca - librería para los coterráneos de Saramago y para los que van a recorrer un paisaje que ya es familiar a base de haberlo leído antes en páginas memorables.
Se abrió la biblioteca de Lanzarote, lugar de estudio y de intercambio de ideas. Los "Encuentros en la biblioteca" que inauguró María Kodama son una de las actividades periódicas y señeras, pero está también el trabajo de investigación, el que fue necesario realizar para que la Fundación César Manrique pudiera organizar la exposición "La consistencia de los sueños", obra magnifica que, una vez más, la Fundación Saramago reconoce y agradece.
Se han organizado conciertos en Lisboa, Madrid y Lanzarote, se ha editado un libro de memorias que, a su vez, inaugura una línea gráfica, se han recibido a escolares que quieren saber qué es esto de leer, tanto en Lisboa como en Lanzarote, se han atendido a estudiosos de varios continentes, a personas interesadas en el misterioso mundo de las letras y los autores, se han recibido proyectos, obras de ensayo que requirieron de fuentes para avanzar y las encontraron en la Fundación, y, sobre todo, se ha convivido con la materia de los sueños minuto a minuto durante un año.
Un año no es mucho, aunque para la Fundación José Saramago es todo. Ahora, en el tiempo de la madurez, nos presentamos
en este sitio electrónico, que será, como ya lo era el blog, un lugar de encuentro de quienes por la Literatura, sí, y también por los Grandes Derechos Universales sienten predilección y la urgencia de manifestarse y de realizar.
A las Universidades que, como la de Granada en España o la Católica de Córdoba, en Argentina, por citar dos ejemplos destacados, se han sumado a nuestro empeño, gracias y seguiremos viajando juntos.
A los Ministerios de Cultura de Portugal y España, nuestro reconocimiento.
A la Fundación César Manrique, nuestros maestros, un abrazo.
A los pintores que colaboraron con su obra, a los escritores que han estado, a los amigos que han seguido la vida este primer año y que han ofrecido lo mejor que tenían, su interés y dedicación, todo el afecto y la promesa de no desmayar cuando llegue el frío.
El 10 de julio, en Lisboa, celebraremos el primer aniversario. Será en el Teatro San Carlos y alrededor de Jorge de Sena y a su magnífica obra. Para oír de nuevo la respiración de la poesía y de la música que la poesía contiene o por ella es contenida. El acto tiene un título, "Jorge de Sena - Un regreso" , quizá porque queremos llegar, una vez más, al corazón del autor portugués que murió fuera de su tierra pero dentro de su idioma. En el que será reclamado de todas las formas que la capacidad creadora de los sentamientos sea capaz de expresar. Y por fin, para Rogerio Ribeiro y Bartolomeu Cid dos Santos nuestro cariño emocionado: fueron los primeros en retratar la obra de Saramago, los primeros en morir, son los más amados de nuestros corazones.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Cartaz do filme Blindness no Japão