terça-feira, 8 de julho de 2008
Entrevista de Pilar del Río ao DN - 2.ª parte
María Kodama [viúva de Jorge Luís Borges] falou da dificuldade em gerir uma fundação como esta de que é presidenta. É mesmo assim tão difícil?Riquíssimo de glórias e de honra…
É um património que equivale ao que ganham alguns executivos por mês. O autor ganha um xis de cada livro, daí ainda paga imposto e, portanto, há que vender muitos milhões de livros. E não é o caso de Saramago, isso são os autores de best-sellers, porque Saramago é um autor de culto. Deixemo-nos de fantasias de que os escritores são muito ricos, será talvez a senhora que faz o Harry Potter mas, insisto, nunca como os grandes executivos.
A Fundação José Saramago nasce na democracia e para a democracia, mas como não temos fontes de financiamento próprias – não nos nasce petróleo como na Gulbenkian – nem uma potência económica por trás, antes uma soma de muitas vontades tal como aquelas que puseram a voar a passarola do Memorial do Convento, as que realizam os grandes projectos. Essa é a nossa riqueza, ter um patrono como Saramago que sabe que do solo se pode levantar o melhor e o pior. E temos a disposição, energia e uma ideia muito clara da nossa responsabilidade. De que como cidadãos intervimos e nos organizamos ou neste mundo e com esta economia não existe saída.
Não colaborar no sonho de Saramago seria se cúmplice do abandalhamento generalizado e, como detestamos a cultura como adorno nas casas dos ricos, queremos antes homens sábios em todas as esquinas. Isso é democracia. Quanto ao resto, não estamos para tal.
Estamos a organizar-nos bem, ou tão bem como podemos, para que a Fundação não seja um sonho de uma noite de verão. Para que dentro das suas capacidades e dos seus limites – toda e qualquer organização tem os seus limites – se prepare esta Fundação para fazer tudo aquilo que possa e se possível ainda alguma coisa mais para que a cultura se manifeste em todo o seu esplendor e contradições. Somos uma Fundação, repito, para cidadãos e não para consumidores. Não podemos ir até à lua, não temos tecnologia, capital ou desejo, mas poderemos descobrir o seu lado oculto porque contamos com o melhor do mundo: a vontade humana.
Esta Fundação não nasceu para cuidar da obra de Saramago, ela está em todo o mundo e quem trata dela é a sua agente literária. O que queremos fazer é discutir as ideias porque nos fóruns que os poderes realizam, ou nos dos governos, não se quer que nenhuma ideia se solte e tenha efeito? Onde é que estão os fóruns livres? Este é um deles.
Sim, muitíssimas. Enviei uma mensagem a muitos amigos que colocaram nas suas respectivas páginas a ligação com o nosso site e recebemos respostas inesperadas.
É uma preocupação de Saramago, portanto, é uma preocupação da Fundação.
Sim, mas a presidenta assume o espírito da Fundação, que é o espírito que Saramago passa. Como iríamos viver tranquilamente a ler estupendos livros se o mundo está feito uma merda? Eu não posso ler rodeada de porcaria.
Não, o próximo livro de Saramago é importante para a literatura, porque terá aumentado o seu património. Para os leitores, porque temos um livro mais. E enquanto é bom para os demais é bom também para a Fundação.
Que é muito bom.
É diferente dos últimos e mais parecido com alguns dos primeiros. É um livro saramaguiano, cem por cento saramaguiano.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Entrevista de Pilar del Río ao DN - 1.ª parte

Há um ano que é presidente da Fundação José Saramago...
Presidenta!...
Presidenta?
Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.
Mas a palavra não existe!
Porque é que entre uma mulher e um animal tem primazia o género do animal? Porque dizem "Vêm os dois" se é uma mulher e um cão quem vem? Em vez de dizerem que não se pode dizer presidenta, mas ministra sim, solucionem essa injustiça e canalhice. Que os doutos académicos resolvam um conflito que tem séculos porque não têm sensibilidade para apreciar a questão ou nem se aperceberam. Por isso, justificam com leis gramaticais ou simplesmente silenciam e riem-se das pretensões da mulher porque se acham superiores. Em quê?
Ser presidenta da Fundação que tem o nome de Saramago é uma grande responsabilidade?
Sim...
Principalmente tendo em conta que José Saramago é um nome muito polémico em Portugal!
Não. Saramago não é um nome polémico em Portugal. Saramago é um dos três ou quatro portugueses mais amados que há em Portugal. Pode ser que em algum meio, com facilidades de acesso à comunicação social, não se goste de Saramago, mas Saramago também não gosta dessas pessoas. Saramago não é polémico, é muito amado.
Mas o nome Pilar também é muito polémico...
Não. O nome de Pilar não existe em Portugal. Por amor de Deus, dê-me essa alegria hoje, diga-me que sim! Minta-me! Não existe, não, não há polémica comigo porque não tenho repercussão pública.
Não concordo com isso!
Então, porque é que eu sou polémica?
Porque a maior parte dos portugueses a olham como a mulher que foi responsável por levar José Saramago para Espanha.
Não, foi o Governo de Cavaco Silva! Dê outra razão...
Por ter opiniões muito próprias e não ter qualquer problema em as afirmar.
Os inteligentes adoram encontrar personagens com opinião própria, os ignorantes é que não.
Não quer ser politicamente correcta?
Não.
Porquê?
Se a Igreja Católica não tem problemas em defender o que defende, de dizer que as pessoas têm de morrer sem cuidados paliativos e todas essas coisas que vão contra o senso comum...
É mais fácil lidar com os leitores portugueses ou com os leitores espanhóis?Os leitores são bons leitores em Portugal e em Espanha. Alguns jornalistas de alguma comunicação social têm um grande problema com o tamanho do seu ego - para não dizer o tamanho de outra coisa - e estão zangados porque não podem suportar que haja um ser que seja querido, transgressor, escreva bem e seja reconhecido. Mas este não é problema dos leitores, é de umas quantas pessoas que tentam criar opinião, só que a opinião pública não é o mesmo que a opinião publicada.
Considera que a imprensa em Portugal não é livre e serve os interesses de certos grupos?
Penso que a imprensa não é livre no mundo inteiro e cada dia existem mais grupos de pressão que, economicamente, têm de atender muitas frentes. Por isso há cada vez mais boletins informativos e menos jornais e todos respondem a um pensamento politicamente correcto porque o que sai daí não existe e os jornalistas também não oferecem resistência. Os jornalistas são de maneira geral muito mal pagos, salvo as estrelas, e têm muita dificuldade em ter opinião própria. Fazem o que pensam que irá agradar às suas empresas.
Também é jornalista. Sente essas pressões?
Sim, claro.
Consegue ser livre no programa na rádio?
Claro, eu consigo porque tenho muitíssimos anos de trabalho e porque sei que no final acabam sempre a dizer "são coisas da Pilar". Tratam de reduzir-me a uma anedota mais ou menos simpática, mas sei que sou a cereja sobre o bolo.
Pode dizer-se que é uma espécie de Manuela Moura Guedes, muito interventiva?
Não! Entre o jornalismo que faz Manuela Moura Guedes e o que eu faço há uma diferença porque são duas escolas. Ela intervém, interrompe, ataca. Eu deixo falar, porque parece-me que deixando falar a outra pessoa é quando ela se mostra em absoluto. Sou totalmente contra essa forma de fazer jornalismo que é perguntar, perguntar e isso parece-me frequente aqui em Portugal.
Porque é que ainda se mantém jornalista?
Porque aprendi a ler aos sete ou oito anos num jornal e desde então soube que queria ser jornalista. Gosto de contar as coisas e de ser uma intermediação entre o que acontece e as pessoas.
Ainda é de uma geração em que acha que a imprensa podia mudar o mundo?
Não, eu penso que são os seres humanos que têm capacidade para mudar o mundo e não os jornalistas. Não me contento em ser uma notária e fazer registos, nunca fiz um jornalismo neutro e enjoa-me, vomito no jornalismo neutro. Faço um jornalismo que assina a notícia, que vê o mundo de uma maneira determinada e não se conforma com dizer as coisas reconhecidas ou o que recebe das grandes agências. No entanto, o jornalismo não muda o mundo, mas os jornalistas não podem ser tão idiotas que reproduzam o discurso dos centros de poder como costumam fazer.
Fazem um jornalismo neutro?
Jornalismo neutro é o que supostamente aspiram fazer ao contar o que acontece. Um momento genial foi quando o Fidel Castro esteve no Porto e os jornalistas pareciam ser as pessoas mais democratas que existiam no mundo e avançaram contra o senhor Castro com várias perguntas, ao que ele respondeu com outras questões: quantos anos estudaram jornalismo? É uma carreira universitária? Cobram muito? E a resposta foi: "Estamos num país democrático."
Fidel Castro é democrata?
Na Europa, todos os governantes que governam para seu benefício próprio e não para o povo são democratas? Berlusconi é um democrata? Bush é um democrata? Quem massacra um povo como o do Iraque é um democrata? E vão dizer "mas Fidel não deixa sair as pessoas da ilha" e os do Iraque podem sair? E os portugueses que passam necessidades podem partir?
Sabe-se que aprecia muito Hugo Chávez...
Seguramente não é a pessoa com quem vou tomar café à tarde. Tanto faz que goste ou não, mas é a pessoa que está a pôr água e luz nas casas onde não havia, faz escolas e preocupa-se com a saúde. Aplaudo isso e está a repartir a riqueza de um país em que só se dividia a pobreza. Se nunca tivesse tido água em casa, nem luz, nem escola, nem saúde, votaria em Chávez todos os dias.
De que ideologia gosta?
Não é a que gosto, é a que tenho!
Em que partido se inscreveria?
Evidentemente que seria um partido de esquerda, mas não me pergunte qual porque hoje está tudo em mudança. Sempre fui votante do Partido Comunista até que o Partido Socialista (PSOE) me reclamou e eu respondi porque, em alguns momentos, por responsabilidade tinha de estar lá. Mas encontro-me muito bem com a Esquerda Unida de Llamazares apesar de ter votado no Partido Socialista em algumas ocasiões. Esta coisa de o voto ser secreto é outra história de que havia muito para falar. Quer-se secreto porque temos de ocultar a ideologia.
Mas hoje em dia vota em Zapatero?
Não. Voto em algumas ocasiões no PSOE e noutras na Esquerda Unida.
Em Portugal, votaria em qual?
Votaria Partido Comunista, mas nas eleições autárquicas votaria Manuel Maria Carrilho e depois António Costa. E porque não teria votado no Partido Comunista? Queria assegurar que os socialistas governassem, que fosse a esquerda.
Acredita que os partidos comunistas espanhol e português têm futuro nos tempos que correm? A esquerda tem sentido?
Sim, a esquerda é necessária mesmo que os grandes grupos de pressão digam que é uma ideia antiquada. Os "democratas" das grandes empresas e multinacionais acham e conseguem com o seu poder mediático impressionante que se considere que a esquerda não tem futuro, mas as pessoas têm cada vez mais necessidades, dívidas, angústia e problemas para viver e isto o patrão não irá solucionar.
E a União Europeia resolvê-los-á?
Sim... (ri-se) A União Europeia com Berlusconi e Sarkozy irá mesmo resolver muitos problemas...
E a Europa de Zapatero e Sócrates?
Não, porque vão ser isolados. Quem manda é essa coisa tão patética e ridícula chamada Berlusconi e do género e irão fazer o possível por isolar os partidos socialistas.
E Mariano Rajoy também é tipo Berlusconi?
Não, por Deus, não! Mariano Rajoy é uma pessoa de quem pessoalmente gosto mas representa interesses que não são os meus e tem posições perante o mundo que não são as minhas. Respeito-o.
O PP de Mariano Rajoy está num grande debate sobre se volta ao centro...
E por uma razão muito simples, é que supostamente nessa massa amorfa que é o centro é onde está a maior fonte de votos. Creio que ele quer vir a ser centro para refundar o que foi a UCD de Adolfo Suárez.
Mas está a ter grande contestação interna?
A Esperanza Aguirre é uma política e tem toda a legitimidade em querer ser a líder do Partido Popular. E como o diz claramente isso agrada-me.
As mulheres na política são como os homens, melhores ou piores?
As mulheres nunca podem ser iguais aos homens. Não são homens! E os homens não podem ser iguais às mulheres.
A actual ministra das Forças Armadas de Espanha voltou ao trabalho, seis semanas depois de ter sido mãe... Isso é ser diferente?
Não. Esteve grávida, regressou e o seu marido está de baixa a cuidar do menino.
Zapatero tem no Governo várias mulheres...
Porque é esperto. Porque é inteligente.
Só por essas razões?
Claro. Se vai fazer uma equipa de pessoas que trabalhem com ele - que não estejam a trabalhar para eles mesmos - e que trabalhem para a sociedade, então encontra nesse grupo de mulheres quem trabalhe para a sociedade e menos para elas mesmas. Estamos habituadas a ter de trabalhar para os filhos que temos.
Mas não considera que as mulheres trabalham melhor do que os homens?
Trabalhamos mais, melhor e em várias coisas de cada vez.
Essa possibilidade feminina de trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo é um mito...
Vamos lá ver, conte as coisas que já fez hoje. (Faço a lista e responde) Parece uma mulher (risos)
Como é que se porta o homem lá de casa?
Essa é outra história. Estamos a falar de um tempo distinto, um trabalho distinto, uma circunstância distinta. Não responde ao cânone.
Zapatero abraça todas as bandeiras gay. Para ganhar votos ou porque acredita?
Zapatero abraça as bandeiras que são direitos humanos e veio corrigir um défice democrático. E a legalização dos casamentos homossexuais é um défice democrático.
O casamento homossexual não a preocupa?Porquê?
É muito pior e mais complicado para a vida matrimonial os homens com barriga.
Nos EUA tivemos agora uma mulher e um afro-americano a disputar a presidência…
Um negro!
O que lamento é que a mulher não tenha ganho as primárias. Nos EUA, os negros conseguiram o direito a voto em todos os estados antes das mulheres. Esse senhor tem uma cor diferente mas agradava-me que fosse uma pessoa que fizesse uma mudança qualitativa e por muitíssimas razões que fosse Hillary Clinton. Porque está cheia de ira e de raiva e porque tem um domínio das coisas, mas as pessoas deixaram-se levar pelo discurso muito bonito e poético de Obama.
Entrevista de João Céu e Silva
Fotografia de Rui Coutinho
Publicada no Diário de Notícias de 06 de Julho de 2008
sexta-feira, 4 de julho de 2008
A Consistência dos Sonhos. Uma visita virtual

quarta-feira, 2 de julho de 2008
Concerto na Galeria do Rei Dom Luís I
A entrada é livre.
Organização: Ministério da Cultura, Instituto de Museus e Conservação e Teatro Nacional de São Carlos
terça-feira, 1 de julho de 2008
Curso livre em torno da obra de José Saramago no Palácio da Ajuda
No âmbito da exposição A Consistência dos Sonhos, patente na Galeria de Pintura do Rei Dom Luís I do Palácio da Ajuda, até ao próximo dia 27 de Julho, o Instituto dos Museus e Conservação (IMC) e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB) organizam um curso livre a decorrer nos dias 10 e 11 de Julho em torno da obra do escritor, abordando aspectos variados na obra de Saramago.10 de Julho
11.30 - Maria Isabel Rocheta
12.15 - Dialogismo e encontro de culturas em História do Cerco de Lisboa
14.30 - José Manuel Mendes
15.15 - Entre romances: os Cadernos de Lanzarote
15.30 - Miguel Real
16.15 - Saramago e o romance histórico português
11 de Julho
11.30 - Paula Morão
12.15 - O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago: percurso na cidade de Lisboa
Almoço na Estufa real, Calçada da Ajuda
14.30 - Ana Paula Arnaut
15.15 - José Saramago: da (in)consistência da História à consistência dos sonhos
15.30 - José Manuel Mendes
16.15 - As palavras - Leitura de textos de José Saramago
Inscrições gratuitas até 7 de Julho:
saramago.expo@dglb.pt
Tel. - 21 798 21 43 ou 45
Fax - 21 798 21 41
Almoço na esplanada do restaurante Estufa Real (28€)
Jardim Botânico da Ajuda, Calçada da Ajuda
Inscrição prévia nos mesmos contactos
Ao clicar na imagem, pode ver o programa em tamanho real
domingo, 29 de junho de 2008
Fundação José Saramago - Primeiro aniversário
Nascemos há um ano, quando José Saramago assinou uma declaração que transmitia o impulso de que necessitávamos para nos constituirmos numa Fundação que se propunha objectivos públicos, claros e concretos. Logo tivemos de crescer, ter casa, documentos que dessem fé da nossa existência, em resumo, dar à vida os sonhos que tinhamos vivido durante o longo período de gestação que antecedeu o acto criador.Agora já somos crescidos, temos um ano de vida e umas quantas experiências acumuladas:
Cumprimos as obrigações básicas, em cada manhã abrem-se as portas da sede da Fundação em Lisboa e ali, com Saramago trabalhando no seu escritório, articulam-se sonhos e possibilidades, a realidade que exige concretização e a necessária dose de entusiasmo sem a qual nada é possível.
Inaugurou-se a sede local de Azinhaga, um cibercafé-biblioteca-livraria para os conterrâneos de Saramago e para os que venham percorrer uma paisagem que já lhes é familiar por a terem lido em páginas memoráveis.
Abriu-se a biblioteca de Lanzarote, lugar de estudo e de intercâmbio de ideias. Os “Encontros na Biblioteca”, que Maria Kodama inaugurou, são uma das actividades principais a realizar periodicamente, mas não se pode esquecer também o trabalho de investigação que foi necessário realizar para que a Fundação César Manrique pudesse organizar a exposição “A consistência dos sonhos”, obra magnífica que, uma vez mais, a Fundação José Saramago reconhece e agradece.
Organizaram-se concertos em Lisboa, Madrid e Lanzarote, editou-se um livro de memórias que, por sua vez, inaugura uma linha gráfica, receberam-se alunos que querem saber que vem a ser isso de ler, atenderam-se estudiosos de vários continentes, pessoas interessadas no misterioso mundo das letras e dos autores, receberam-se projectos, obras de ensaio que requeriam fontes para avançarem e as encontraram na Fundação, e, sobretudo, convivimos com a matéria dos sonhos durante um ano.
Um ano não é muito, embora para a Fundação José Saramago seja tudo. Agora é o tempo da maturidade, apresentamo-nos neste “sítio” electrónico, que será, como já o era o “blog”, um lugar de encontro de quem pela Literatura, sim, mas também pelos Gandes Direitos Universais, sintam predilecção e urgência de manifestar-se e realizar.
Às Universidades que, como a de Granada, em Espanha, e a Católica de Córdoba, em Argentina, para citar dois exemplos destacados, se somaram ao nosso empenhamento. Obrigado. Continuaremos a viajar juntos.
Aos Ministérios de Cultura de Portugal e Espanha, o nosso reconhecimento.
À Fundação César Manrique, nossos mestres, um abraço.
Aos pintores que colaboraram com a sua obra, aos escritores que estiveram, aos amigos que têm acompanhado a nossa vida neste primeiro ano e que ofereceram o melhor que tinham, o seu interesse e dedicação, todo o nosso afecto e a promessa de que não desmaiaremos quando o frio chegar.
No dia 10 de Julho, em Lisboa, celebraremos o primeiro aniversário. Será no Teatro de São Carlos e ao redor de Jorge de Sena e da sua magnífica obra de poeta, ficcionista e ensaísta. Para ouvir de novo a respiração da poesia e da música que a poesia contém ou se contém nela. O acto tem um título, “Jorge de Sena – Um regresso”, talvez porque queremos chegar, uma vez mais, ao coração de um autor português que, morreu fora da sua terra, mas dentro do seu idioma. Acto este em que será reclamado de todas as formas que a capacidade criadora dos sentimentos seja capaz de expressar.
E, por fim, para Rogério Ribeiro e Bartolomeu Cid dos Santos o nosso comovido carinho: foram os primeiros a retratar a obra de Saramago, os primeiros a morrer, são os mais amados dos nossos corações.
Nacimos ahora hace un año, cuando José Saramago firmó una declaración que transmitía el aliento que necesitábamos para constituirnos en una Fundación con objetivos públicos, claros y concretos. Luego necesitamos crecer, tener casa, documentos que dieran fe de existencia, en definitiva, poner en la vida los sueños acumulados mientras el periodo de gestación, tan largo.
Ahora ya somos mayores, tenemos un año de vida y unas cuantas experiencias acumuladas:
Porque hemos hecho los deberes, cada mañana abre sus puertas la sede de la Fundación en Lisboa y desde ella, con Saramago trabajando en su escritorio, se trata de articular sueños y posibilidades, la realidad que exige concreción y la necesaria dosis de entusiasmo sin la cual nada es posible.
Se inauguró la sede de Azinhaga, un cibercafé- biblioteca - librería para los coterráneos de Saramago y para los que van a recorrer un paisaje que ya es familiar a base de haberlo leído antes en páginas memorables.
Se abrió la biblioteca de Lanzarote, lugar de estudio y de intercambio de ideas. Los "Encuentros en la biblioteca" que inauguró María Kodama son una de las actividades periódicas y señeras, pero está también el trabajo de investigación, el que fue necesario realizar para que la Fundación César Manrique pudiera organizar la exposición "La consistencia de los sueños", obra magnifica que, una vez más, la Fundación Saramago reconoce y agradece.
Se han organizado conciertos en Lisboa, Madrid y Lanzarote, se ha editado un libro de memorias que, a su vez, inaugura una línea gráfica, se han recibido a escolares que quieren saber qué es esto de leer, tanto en Lisboa como en Lanzarote, se han atendido a estudiosos de varios continentes, a personas interesadas en el misterioso mundo de las letras y los autores, se han recibido proyectos, obras de ensayo que requirieron de fuentes para avanzar y las encontraron en la Fundación, y, sobre todo, se ha convivido con la materia de los sueños minuto a minuto durante un año.
Un año no es mucho, aunque para la Fundación José Saramago es todo. Ahora, en el tiempo de la madurez, nos presentamos en este sitio electrónico, que será, como ya lo era el blog, un lugar de encuentro de quienes por la Literatura, sí, y también por los Grandes Derechos Universales sienten predilección y la urgencia de manifestarse y de realizar.
A las Universidades que, como la de Granada en España o la Católica de Córdoba, en Argentina, por citar dos ejemplos destacados, se han sumado a nuestro empeño, gracias y seguiremos viajando juntos.
A los Ministerios de Cultura de Portugal y España, nuestro reconocimiento.
A la Fundación César Manrique, nuestros maestros, un abrazo.
A los pintores que colaboraron con su obra, a los escritores que han estado, a los amigos que han seguido la vida este primer año y que han ofrecido lo mejor que tenían, su interés y dedicación, todo el afecto y la promesa de no desmayar cuando llegue el frío.
El 10 de julio, en Lisboa, celebraremos el primer aniversario. Será en el Teatro San Carlos y alrededor de Jorge de Sena y a su magnífica obra. Para oír de nuevo la respiración de la poesía y de la música que la poesía contiene o por ella es contenida. El acto tiene un título, "Jorge de Sena - Un regreso" , quizá porque queremos llegar, una vez más, al corazón del autor portugués que murió fuera de su tierra pero dentro de su idioma. En el que será reclamado de todas las formas que la capacidad creadora de los sentamientos sea capaz de expresar. Y por fin, para Rogerio Ribeiro y Bartolomeu Cid dos Santos nuestro cariño emocionado: fueron los primeros en retratar la obra de Saramago, los primeros en morir, son los más amados de nuestros corazones.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal
Já está disponível o site da Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal. Este site foi apresentado no âmbito da exposição A Consistência dos Sonhos, patente no Palácio da Ajuda até ao próximo dia 27 de Julho. Do espólio fazem parte manuscritos, agenda, correspondência de José Saramago trocada com outros escritores portugueses. Com este site a Biblioteca Nacional, e o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, dão mais um contributo para o conhecimento dos processos de construção da obra de José Saramago e para o seu enquadramento no panorama cultural português e internacional.Aqui fica a nota explicativa sobre os conteúdos disponibilizados:
«O sítio Web da Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal assenta em duas vertentes: na disponibilização em linha de originais e na edição do inventário do acervo. Ficam acessíveis à investigação os manuscritos do autor que integram o fundo, bem como o testemunho da sua consagração como Escritor de renome internacional - o diploma do Prémio Nobel da Literatura de 1998. Fica também disponível o retrato integral da colecção, o inventário, que, organizando os documentos em função da sua tipologia e autoria, informa sobre a especificidade das peças.
O fundo foi constituído em 1994 por generosa dádiva de José Saramago, anunciada, em carta de 22 de Março, nos seguintes termos: Um dia destes, com vagar, vou dar uma volta aos meus desordenados arquivos. Há cartas, papéis, manuscritos que não tenho o direito de conservar como coisa minha, pois na verdade pertencem a todos. A primeira parte da documentação, entregue pouco depois, integra as séries Correspondência – cartas trocadas com Adolfo Casais Monteiro, José Rodrigues Miguéis e recebidas de Massaud Moisés – e Manuscritos de terceiros, onde se destacam obras de J. R. Miguéis. Posteriormente, em 1998, inicia a entrega de documentação aqui classificada como Manuscritos do Autor. No ano seguinte a colecção é acrescida com o diploma já referido – classificado como Documento biográfico - e a restante documentação das séries de Correspondência.
Fátima Lopes
Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Saramago apresenta prosa «límpida, quase transparente» de Mia Couto
Jornal Sol
terça-feira, 24 de junho de 2008
Marisa Paredes visitou A Consistência dos Sonhos
A actriz espanhola Marisa Paredes, um dos rostos emblemáticos do cinema espanhol, viajou até Lisboa para ver a Exposição A Consistência dos Sonhos, em exibição no Palácio Nacional da Ajuda, nesta cidade. Marisa Paredes, juntamente com a italiana Laura Morante e a portuguesa Maria de Medeiros, protagonizou um espectáculo, representado em vários países europeus, Itália, Espanha, Grécia, Portugal, entre outros, em que cada actriz dava voz, na sua própria língua, às mulheres dos livros de Saramago. O espectáculo, de singular beleza e austeridade cénica, foi produzido pela Sete Sóis, Sete Luas, uma produtora italiana que tem como objectivo aproximar as diferentes culturas europeias em espaços afastados dos circuitos comerciais mas aonde a curiosidade e o interesse se manifestam de forma indiscutível. Marisa Paredes foi acompanhada na sua visita à Exposição pelo marido, o director da Filmoteca Nacional de Espanha, José María Prado, autor da foto, e por Pilar del Río. José María Prado é também autor de um retrato fotográfico de José Saramago, de grandes proporções, o maior da Exposição, que pode ver-se na Sala de Pintura do Rei D. Luís do Palácio da Ajuda. La actriz española Marisa Paredes, uno de los rostros emblemáticos del cine español, viajó a Lisboa para ver la Exposición "La consistencia de los sueños" que se exhibe en el Palacio de Ajuda de Lisboa. Marisa Paredes, junto con la italiana Laura Morante y la portuguesa María de Medeiros, protagonizó un espectáculo, representado en varios países europeos, como Italia, España, Grecia, Portugal entre otros, donde cada actriz daba voz, en su propio idioma, a las mujeres de los libros de Saramago. El espectáculo, de singular belleza y austeridad escénica, estuvo producido por "Sete Sois, Sete Luas", productora italiana que tiene como objetivo acercar las distintas culturas europeas en espacios alejados de los circuitos comerciales pero donde la curiosidad y el interés se manifiestan de forma indiscutible.
Blindness já tem data de estreia
Distribuição Castello Lopes
segunda-feira, 23 de junho de 2008
A surpresa emocionada de María Kodama na Exposição A Consistência dos Sonhos
La sorpresa emocionada de María Kodama en la Exposición La Consistencia de los sueños
Cuando María Kodama acabó de recorrer la sala Dom Luis del Palacio de Ayuda no disimuló su emoción, quizá porque ella, tan habituada a saber que palabras y genio son materiales suficiente para levantar monumentos literarios, pudo percibir, de forma singular, la riqueza contenida en los documentos que se muestran en la exposición, la vida que encierran, sí, pero también un aroma especial que es como una respiración interior, un latido que habita en páginas de hace sesenta años, inéditas hasta que ahora por fin pueden ser miradas, en un cuaderno de notas, en un sueño frustrado o en un encuentro glorioso, en un contrato que dice "sí, publicamos" o en la pintura que vio mudado el mundo porque así lo contaba el libro que le sirvió de inspiración a Rogério Ribeiro... A María Kodama le emoción la exposición sobre José Saramago porque sintió, paso a paso, el esfuerzo de escribir, la alegría de haber escrito, la sospecha de que seguiremos leyendo a un autor que parece ya estar instalado en la historia y sin embargo toma café a la caída de la tarde, sentado con amigos en el jardín de su casa lisboeta...
María Kodama es una lectora privilegiada. Aprendió con Borges anglosajón e islandés para leer textos fundacionales de literaturas magníficas. Lee siempre, cuando viaja y cuando está en cualquier rincón del mundo. Lee y sabe entender la vida de las palabras. Lee, ve, y viendo, incorpora experiencias a su ser, más experiencias para fortalecer su capacidad de emoción. Por eso iba emocionada del Palacio de Ayuda cuando, en silencio, bajaba las escaleras. Por eso, cuando el Ministro de Cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, se acercó a saludarla, elogió la exposición con palabras breves aunque rotundas, decía "maravillosa" y los ojos le brillaban de forma contagiosa y las manos, entrelazándose una y otra vez, expresaban que algo íntimo y profundo había sucedido en la sala de exposiciones. Y sí, la conmoción vino y se instaló en María Kodama cuando, tras haber visto originales, la simiente de una vida, el tiempo de silencio, los tanteos, el esfuerzo de escribir el memorial de un convento que tanto trabajo dio, el convento y el libro, después de haberle inventado una vida más a Pessoa - Reis, después de haber visto la reconstrucción de la humildad con que el escritor escribe, después de eso, María Kodama vio una agenda escrita, con una fecha y un nombre. Era el 14 de junio de 1986. Saramago tenía señalado ese día porque conoció a la que iba a ser su mujer. María tenía señalado ese día porque murió Jorge Luis Borges, que había sido, y sigue siendo, el centro de su vida. "Hubo un relevo", dijo María más tarde. No: no existen esos relevos, aunque sí se dan circunstancias que reconfortan y que pueden ser apreciadas por quienes, como María, hacen de la fuerza de la sensibilidad el empuje necesario para cruzar la vida.
"La consistencia de los sueños" el 20 de junio alcanzó la mayoría de edad porque, una vez más, desveló emociones ocultas. La exposición cruzó un ecuador que los lectores atentos sabrán apreciar. Quizá habría que poner, junto a la hoja que señala el 14 de junio, una flor fresca: para Borges y María Kodama que tanto nos enseñan y a quienes tanto amamos.
Pilar del Río
Última hora - A Maior Flor do Mundo premiada em Chicago
A Maior Flor do Mundo venceu o Prémio de Melhor Argumento no Festival de Curtas-Metragens de Chicago. Na selecção oficial, efectuada a partir de mais de duzentos filmes, figuraram trabalhos de diferentes países, entre documentários e obras de ficção. A Maior Flor do Mundo vê assim reconhecida a sua qualidade, destacando-se o facto de ser o único filme de animação a vencer um Prémio no Festival. O filme pode ser visto na exposição A Consistência dos Sonhos, patente no Palácio da Ajuda até dia 27 de Julho.
O DVD encontra-se disponível através da Fundação José Saramago.
Kodama entre o génio de Borges e as perguntas geniais de Saramago
Por Isabel Coutinho, Públicodomingo, 22 de junho de 2008
E se falássemos de Borges? nas páginas do DN
Foi com a leitura do poema Elegia que se iniciou na passada sexta-feira, na Biblioteca Nacional, a conversa entre José Saramago e a escritora e tradutora María Kodama, antiga companheira de Jorge Luis Borges. Depois de um encontro em Lanzarote, os dois autores voltaram a reunir--se em debate público com a vida e obra de Borges como pano de fundo. A palestra-colóquio intitulada "E se falássemos de Borges?", organizada pela Fundação José Saramago, é um dos primeiros eventos que esta instituição criou para "mexer com o movimento literário nacional", como revelou a presidente da fundação, Pilar Saramago, que anunciou mais iniciativas. A primeira ocorrerá dia 10 de Julho no Teatro São Carlos e será uma sessão em torno da obra de Jorge de Sena, com a presença dos escritores Eduardo Lourenço, Pedro Tamen e Jorge Fazenda Lourenço. Saramago adiantou também futuras sessões dedicadas a José Rodrigues Miguéis e Raul Brandão. Apesar de terem sido os contos do escritor argentino que "lhe deram grande fama internacional", María Kodama revelou à plateia que "Borges sempre se sentiu um poeta e queria ser recordado como tal, mas tinha constantemente a preocupação de não conseguir chegar ao poema perfeito". A antiga companheira de Borges recordou que a primeira fase da obra do argentino foi dedicada à poesia, mas "depois de ter sofrido um grave acidente na cabeça receou ter perdido a capacidade intelectual para escrever poemas". Devido a este acontecimento, o escritor voltou-se para a escrita de contos. Mais tarde, "quando perde a visão retoma a escrita de poemas, uma vez que eram de fácil memorização". Borges foi definido por María Kodama como "uma pessoa tímida", o que contrasta com os seus relatos de "uma extrema desumanidade", como descreveu Saramago. No entanto, a viúva de Borges justificou tal violência lembrando o passado do escritor. "Em pequeno, Jorge ouviu muitos relatos violentos e, mais tarde, viu matar um homem no Uruguai."A relação de Borges com a política foi "muito complexa". No seu país foi acusado de ser um "traidor", lembrou Kodama. Por isso ele considerava a Suíça, onde viveu e acabou por falecer, "um exemplo do que podia ser o mundo se todas as pessoas fossem tolerantes e convivessem pacificamente com quem é diferente". O poema Os Conjurados, lido por Fernando Pinto do Amaral, retrata esta visão do escritor argentino. No final, Saramago foi questionado quanto à actualidade da obra de Jorge Luis Borges. O escritor comparou Borges a "um fisioterapeuta que põe a funcionar tudo o que está dentro do corpo, o que faz bem à saúde". Nesta iniciativa estiveram presentes a secretária de Estado da Cultura, Maria Paula Fernandes dos Santos, o embaixador da Argentina, Jorge Faurie, o escritor Rui Zink e Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, que publicou grande parte da obra do escritor argentino.sábado, 21 de junho de 2008
Falando de Borges

E foi de Borges que se falou ontem.
Em tom informal, José Saramago e María Kodama uniram a experiência de leitura à memória vivencial. Lucidamente, evocaram o génio, destacando a sua modernidade, a sua liberdade, a sua imaginação.
Esta conversa estará disponível a partir de segunda-feira, dia 23 de Junho, no site da RDP, programa A Força das Coisas.







