terça-feira, 8 de julho de 2008
Entrevista de Pilar del Río ao DN - 2.ª parte
María Kodama [viúva de Jorge Luís Borges] falou da dificuldade em gerir uma fundação como esta de que é presidenta. É mesmo assim tão difícil?Riquíssimo de glórias e de honra…
É um património que equivale ao que ganham alguns executivos por mês. O autor ganha um xis de cada livro, daí ainda paga imposto e, portanto, há que vender muitos milhões de livros. E não é o caso de Saramago, isso são os autores de best-sellers, porque Saramago é um autor de culto. Deixemo-nos de fantasias de que os escritores são muito ricos, será talvez a senhora que faz o Harry Potter mas, insisto, nunca como os grandes executivos.
A Fundação José Saramago nasce na democracia e para a democracia, mas como não temos fontes de financiamento próprias – não nos nasce petróleo como na Gulbenkian – nem uma potência económica por trás, antes uma soma de muitas vontades tal como aquelas que puseram a voar a passarola do Memorial do Convento, as que realizam os grandes projectos. Essa é a nossa riqueza, ter um patrono como Saramago que sabe que do solo se pode levantar o melhor e o pior. E temos a disposição, energia e uma ideia muito clara da nossa responsabilidade. De que como cidadãos intervimos e nos organizamos ou neste mundo e com esta economia não existe saída.
Não colaborar no sonho de Saramago seria se cúmplice do abandalhamento generalizado e, como detestamos a cultura como adorno nas casas dos ricos, queremos antes homens sábios em todas as esquinas. Isso é democracia. Quanto ao resto, não estamos para tal.
Estamos a organizar-nos bem, ou tão bem como podemos, para que a Fundação não seja um sonho de uma noite de verão. Para que dentro das suas capacidades e dos seus limites – toda e qualquer organização tem os seus limites – se prepare esta Fundação para fazer tudo aquilo que possa e se possível ainda alguma coisa mais para que a cultura se manifeste em todo o seu esplendor e contradições. Somos uma Fundação, repito, para cidadãos e não para consumidores. Não podemos ir até à lua, não temos tecnologia, capital ou desejo, mas poderemos descobrir o seu lado oculto porque contamos com o melhor do mundo: a vontade humana.
Esta Fundação não nasceu para cuidar da obra de Saramago, ela está em todo o mundo e quem trata dela é a sua agente literária. O que queremos fazer é discutir as ideias porque nos fóruns que os poderes realizam, ou nos dos governos, não se quer que nenhuma ideia se solte e tenha efeito? Onde é que estão os fóruns livres? Este é um deles.
Sim, muitíssimas. Enviei uma mensagem a muitos amigos que colocaram nas suas respectivas páginas a ligação com o nosso site e recebemos respostas inesperadas.
É uma preocupação de Saramago, portanto, é uma preocupação da Fundação.
Sim, mas a presidenta assume o espírito da Fundação, que é o espírito que Saramago passa. Como iríamos viver tranquilamente a ler estupendos livros se o mundo está feito uma merda? Eu não posso ler rodeada de porcaria.
Não, o próximo livro de Saramago é importante para a literatura, porque terá aumentado o seu património. Para os leitores, porque temos um livro mais. E enquanto é bom para os demais é bom também para a Fundação.
Que é muito bom.
É diferente dos últimos e mais parecido com alguns dos primeiros. É um livro saramaguiano, cem por cento saramaguiano.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Entrevista de Pilar del Río ao DN - 1.ª parte

Foi o livro 'Memorial do Convento' que fez Pilar del Río encontrar José Saramago em 1986. Desde então, ficou conhecida dos portugueses por ser capaz de fazer afirmações tão contundentes como as do escritor e partilhar do seu 'exílio'. Nesta entrevista, confessa-se "uma mulher indignada" que não perdoa sexismos gramaticais nem perguntas machistas
Há um ano que é presidente da Fundação José Saramago...
Presidenta!...
Presidenta?
Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.
Mas a palavra não existe!
Porque é que entre uma mulher e um animal tem primazia o género do animal? Porque dizem "Vêm os dois" se é uma mulher e um cão quem vem? Em vez de dizerem que não se pode dizer presidenta, mas ministra sim, solucionem essa injustiça e canalhice. Que os doutos académicos resolvam um conflito que tem séculos porque não têm sensibilidade para apreciar a questão ou nem se aperceberam. Por isso, justificam com leis gramaticais ou simplesmente silenciam e riem-se das pretensões da mulher porque se acham superiores. Em quê?
Ser presidenta da Fundação que tem o nome de Saramago é uma grande responsabilidade?
Sim...
Principalmente tendo em conta que José Saramago é um nome muito polémico em Portugal!
Não. Saramago não é um nome polémico em Portugal. Saramago é um dos três ou quatro portugueses mais amados que há em Portugal. Pode ser que em algum meio, com facilidades de acesso à comunicação social, não se goste de Saramago, mas Saramago também não gosta dessas pessoas. Saramago não é polémico, é muito amado.
Mas o nome Pilar também é muito polémico...
Não. O nome de Pilar não existe em Portugal. Por amor de Deus, dê-me essa alegria hoje, diga-me que sim! Minta-me! Não existe, não, não há polémica comigo porque não tenho repercussão pública.
Não concordo com isso!
Então, porque é que eu sou polémica?
Porque a maior parte dos portugueses a olham como a mulher que foi responsável por levar José Saramago para Espanha.
Não, foi o Governo de Cavaco Silva! Dê outra razão...
Por ter opiniões muito próprias e não ter qualquer problema em as afirmar.
Os inteligentes adoram encontrar personagens com opinião própria, os ignorantes é que não.
Não quer ser politicamente correcta?
Não.
Porquê?
Se a Igreja Católica não tem problemas em defender o que defende, de dizer que as pessoas têm de morrer sem cuidados paliativos e todas essas coisas que vão contra o senso comum...
É mais fácil lidar com os leitores portugueses ou com os leitores espanhóis?Os leitores são bons leitores em Portugal e em Espanha. Alguns jornalistas de alguma comunicação social têm um grande problema com o tamanho do seu ego - para não dizer o tamanho de outra coisa - e estão zangados porque não podem suportar que haja um ser que seja querido, transgressor, escreva bem e seja reconhecido. Mas este não é problema dos leitores, é de umas quantas pessoas que tentam criar opinião, só que a opinião pública não é o mesmo que a opinião publicada.
Considera que a imprensa em Portugal não é livre e serve os interesses de certos grupos?
Penso que a imprensa não é livre no mundo inteiro e cada dia existem mais grupos de pressão que, economicamente, têm de atender muitas frentes. Por isso há cada vez mais boletins informativos e menos jornais e todos respondem a um pensamento politicamente correcto porque o que sai daí não existe e os jornalistas também não oferecem resistência. Os jornalistas são de maneira geral muito mal pagos, salvo as estrelas, e têm muita dificuldade em ter opinião própria. Fazem o que pensam que irá agradar às suas empresas.
Também é jornalista. Sente essas pressões?
Sim, claro.
Consegue ser livre no programa na rádio?
Claro, eu consigo porque tenho muitíssimos anos de trabalho e porque sei que no final acabam sempre a dizer "são coisas da Pilar". Tratam de reduzir-me a uma anedota mais ou menos simpática, mas sei que sou a cereja sobre o bolo.
Pode dizer-se que é uma espécie de Manuela Moura Guedes, muito interventiva?
Não! Entre o jornalismo que faz Manuela Moura Guedes e o que eu faço há uma diferença porque são duas escolas. Ela intervém, interrompe, ataca. Eu deixo falar, porque parece-me que deixando falar a outra pessoa é quando ela se mostra em absoluto. Sou totalmente contra essa forma de fazer jornalismo que é perguntar, perguntar e isso parece-me frequente aqui em Portugal.
Porque é que ainda se mantém jornalista?
Porque aprendi a ler aos sete ou oito anos num jornal e desde então soube que queria ser jornalista. Gosto de contar as coisas e de ser uma intermediação entre o que acontece e as pessoas.
Ainda é de uma geração em que acha que a imprensa podia mudar o mundo?
Não, eu penso que são os seres humanos que têm capacidade para mudar o mundo e não os jornalistas. Não me contento em ser uma notária e fazer registos, nunca fiz um jornalismo neutro e enjoa-me, vomito no jornalismo neutro. Faço um jornalismo que assina a notícia, que vê o mundo de uma maneira determinada e não se conforma com dizer as coisas reconhecidas ou o que recebe das grandes agências. No entanto, o jornalismo não muda o mundo, mas os jornalistas não podem ser tão idiotas que reproduzam o discurso dos centros de poder como costumam fazer.
Fazem um jornalismo neutro?
Jornalismo neutro é o que supostamente aspiram fazer ao contar o que acontece. Um momento genial foi quando o Fidel Castro esteve no Porto e os jornalistas pareciam ser as pessoas mais democratas que existiam no mundo e avançaram contra o senhor Castro com várias perguntas, ao que ele respondeu com outras questões: quantos anos estudaram jornalismo? É uma carreira universitária? Cobram muito? E a resposta foi: "Estamos num país democrático."
Fidel Castro é democrata?
Na Europa, todos os governantes que governam para seu benefício próprio e não para o povo são democratas? Berlusconi é um democrata? Bush é um democrata? Quem massacra um povo como o do Iraque é um democrata? E vão dizer "mas Fidel não deixa sair as pessoas da ilha" e os do Iraque podem sair? E os portugueses que passam necessidades podem partir?
Sabe-se que aprecia muito Hugo Chávez...
Seguramente não é a pessoa com quem vou tomar café à tarde. Tanto faz que goste ou não, mas é a pessoa que está a pôr água e luz nas casas onde não havia, faz escolas e preocupa-se com a saúde. Aplaudo isso e está a repartir a riqueza de um país em que só se dividia a pobreza. Se nunca tivesse tido água em casa, nem luz, nem escola, nem saúde, votaria em Chávez todos os dias.
De que ideologia gosta?
Não é a que gosto, é a que tenho!
Em que partido se inscreveria?
Evidentemente que seria um partido de esquerda, mas não me pergunte qual porque hoje está tudo em mudança. Sempre fui votante do Partido Comunista até que o Partido Socialista (PSOE) me reclamou e eu respondi porque, em alguns momentos, por responsabilidade tinha de estar lá. Mas encontro-me muito bem com a Esquerda Unida de Llamazares apesar de ter votado no Partido Socialista em algumas ocasiões. Esta coisa de o voto ser secreto é outra história de que havia muito para falar. Quer-se secreto porque temos de ocultar a ideologia.
Mas hoje em dia vota em Zapatero?
Não. Voto em algumas ocasiões no PSOE e noutras na Esquerda Unida.
Em Portugal, votaria em qual?
Votaria Partido Comunista, mas nas eleições autárquicas votaria Manuel Maria Carrilho e depois António Costa. E porque não teria votado no Partido Comunista? Queria assegurar que os socialistas governassem, que fosse a esquerda.
Acredita que os partidos comunistas espanhol e português têm futuro nos tempos que correm? A esquerda tem sentido?
Sim, a esquerda é necessária mesmo que os grandes grupos de pressão digam que é uma ideia antiquada. Os "democratas" das grandes empresas e multinacionais acham e conseguem com o seu poder mediático impressionante que se considere que a esquerda não tem futuro, mas as pessoas têm cada vez mais necessidades, dívidas, angústia e problemas para viver e isto o patrão não irá solucionar.
E a União Europeia resolvê-los-á?
Sim... (ri-se) A União Europeia com Berlusconi e Sarkozy irá mesmo resolver muitos problemas...
E a Europa de Zapatero e Sócrates?
Não, porque vão ser isolados. Quem manda é essa coisa tão patética e ridícula chamada Berlusconi e do género e irão fazer o possível por isolar os partidos socialistas.
E Mariano Rajoy também é tipo Berlusconi?
Não, por Deus, não! Mariano Rajoy é uma pessoa de quem pessoalmente gosto mas representa interesses que não são os meus e tem posições perante o mundo que não são as minhas. Respeito-o.
O PP de Mariano Rajoy está num grande debate sobre se volta ao centro...
E por uma razão muito simples, é que supostamente nessa massa amorfa que é o centro é onde está a maior fonte de votos. Creio que ele quer vir a ser centro para refundar o que foi a UCD de Adolfo Suárez.
Mas está a ter grande contestação interna?
A Esperanza Aguirre é uma política e tem toda a legitimidade em querer ser a líder do Partido Popular. E como o diz claramente isso agrada-me.
As mulheres na política são como os homens, melhores ou piores?
As mulheres nunca podem ser iguais aos homens. Não são homens! E os homens não podem ser iguais às mulheres.
A actual ministra das Forças Armadas de Espanha voltou ao trabalho, seis semanas depois de ter sido mãe... Isso é ser diferente?
Não. Esteve grávida, regressou e o seu marido está de baixa a cuidar do menino.
Zapatero tem no Governo várias mulheres...
Porque é esperto. Porque é inteligente.
Só por essas razões?
Claro. Se vai fazer uma equipa de pessoas que trabalhem com ele - que não estejam a trabalhar para eles mesmos - e que trabalhem para a sociedade, então encontra nesse grupo de mulheres quem trabalhe para a sociedade e menos para elas mesmas. Estamos habituadas a ter de trabalhar para os filhos que temos.
Mas não considera que as mulheres trabalham melhor do que os homens?
Trabalhamos mais, melhor e em várias coisas de cada vez.
Essa possibilidade feminina de trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo é um mito...
Vamos lá ver, conte as coisas que já fez hoje. (Faço a lista e responde) Parece uma mulher (risos)
Como é que se porta o homem lá de casa?
Essa é outra história. Estamos a falar de um tempo distinto, um trabalho distinto, uma circunstância distinta. Não responde ao cânone.
Zapatero abraça todas as bandeiras gay. Para ganhar votos ou porque acredita?
Zapatero abraça as bandeiras que são direitos humanos e veio corrigir um défice democrático. E a legalização dos casamentos homossexuais é um défice democrático.
O casamento homossexual não a preocupa?Porquê?
É muito pior e mais complicado para a vida matrimonial os homens com barriga.
Nos EUA tivemos agora uma mulher e um afro-americano a disputar a presidência…
Um negro!
Há um ano que é presidente da Fundação José Saramago...
Presidenta!...
Presidenta?
Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.
Mas a palavra não existe!
Porque é que entre uma mulher e um animal tem primazia o género do animal? Porque dizem "Vêm os dois" se é uma mulher e um cão quem vem? Em vez de dizerem que não se pode dizer presidenta, mas ministra sim, solucionem essa injustiça e canalhice. Que os doutos académicos resolvam um conflito que tem séculos porque não têm sensibilidade para apreciar a questão ou nem se aperceberam. Por isso, justificam com leis gramaticais ou simplesmente silenciam e riem-se das pretensões da mulher porque se acham superiores. Em quê?
Ser presidenta da Fundação que tem o nome de Saramago é uma grande responsabilidade?
Sim...
Principalmente tendo em conta que José Saramago é um nome muito polémico em Portugal!
Não. Saramago não é um nome polémico em Portugal. Saramago é um dos três ou quatro portugueses mais amados que há em Portugal. Pode ser que em algum meio, com facilidades de acesso à comunicação social, não se goste de Saramago, mas Saramago também não gosta dessas pessoas. Saramago não é polémico, é muito amado.
Mas o nome Pilar também é muito polémico...
Não. O nome de Pilar não existe em Portugal. Por amor de Deus, dê-me essa alegria hoje, diga-me que sim! Minta-me! Não existe, não, não há polémica comigo porque não tenho repercussão pública.
Não concordo com isso!
Então, porque é que eu sou polémica?
Porque a maior parte dos portugueses a olham como a mulher que foi responsável por levar José Saramago para Espanha.
Não, foi o Governo de Cavaco Silva! Dê outra razão...
Por ter opiniões muito próprias e não ter qualquer problema em as afirmar.
Os inteligentes adoram encontrar personagens com opinião própria, os ignorantes é que não.
Não quer ser politicamente correcta?
Não.
Porquê?
Se a Igreja Católica não tem problemas em defender o que defende, de dizer que as pessoas têm de morrer sem cuidados paliativos e todas essas coisas que vão contra o senso comum...
É mais fácil lidar com os leitores portugueses ou com os leitores espanhóis?Os leitores são bons leitores em Portugal e em Espanha. Alguns jornalistas de alguma comunicação social têm um grande problema com o tamanho do seu ego - para não dizer o tamanho de outra coisa - e estão zangados porque não podem suportar que haja um ser que seja querido, transgressor, escreva bem e seja reconhecido. Mas este não é problema dos leitores, é de umas quantas pessoas que tentam criar opinião, só que a opinião pública não é o mesmo que a opinião publicada.
Considera que a imprensa em Portugal não é livre e serve os interesses de certos grupos?
Penso que a imprensa não é livre no mundo inteiro e cada dia existem mais grupos de pressão que, economicamente, têm de atender muitas frentes. Por isso há cada vez mais boletins informativos e menos jornais e todos respondem a um pensamento politicamente correcto porque o que sai daí não existe e os jornalistas também não oferecem resistência. Os jornalistas são de maneira geral muito mal pagos, salvo as estrelas, e têm muita dificuldade em ter opinião própria. Fazem o que pensam que irá agradar às suas empresas.
Também é jornalista. Sente essas pressões?
Sim, claro.
Consegue ser livre no programa na rádio?
Claro, eu consigo porque tenho muitíssimos anos de trabalho e porque sei que no final acabam sempre a dizer "são coisas da Pilar". Tratam de reduzir-me a uma anedota mais ou menos simpática, mas sei que sou a cereja sobre o bolo.
Pode dizer-se que é uma espécie de Manuela Moura Guedes, muito interventiva?
Não! Entre o jornalismo que faz Manuela Moura Guedes e o que eu faço há uma diferença porque são duas escolas. Ela intervém, interrompe, ataca. Eu deixo falar, porque parece-me que deixando falar a outra pessoa é quando ela se mostra em absoluto. Sou totalmente contra essa forma de fazer jornalismo que é perguntar, perguntar e isso parece-me frequente aqui em Portugal.
Porque é que ainda se mantém jornalista?
Porque aprendi a ler aos sete ou oito anos num jornal e desde então soube que queria ser jornalista. Gosto de contar as coisas e de ser uma intermediação entre o que acontece e as pessoas.
Ainda é de uma geração em que acha que a imprensa podia mudar o mundo?
Não, eu penso que são os seres humanos que têm capacidade para mudar o mundo e não os jornalistas. Não me contento em ser uma notária e fazer registos, nunca fiz um jornalismo neutro e enjoa-me, vomito no jornalismo neutro. Faço um jornalismo que assina a notícia, que vê o mundo de uma maneira determinada e não se conforma com dizer as coisas reconhecidas ou o que recebe das grandes agências. No entanto, o jornalismo não muda o mundo, mas os jornalistas não podem ser tão idiotas que reproduzam o discurso dos centros de poder como costumam fazer.
Fazem um jornalismo neutro?
Jornalismo neutro é o que supostamente aspiram fazer ao contar o que acontece. Um momento genial foi quando o Fidel Castro esteve no Porto e os jornalistas pareciam ser as pessoas mais democratas que existiam no mundo e avançaram contra o senhor Castro com várias perguntas, ao que ele respondeu com outras questões: quantos anos estudaram jornalismo? É uma carreira universitária? Cobram muito? E a resposta foi: "Estamos num país democrático."
Fidel Castro é democrata?
Na Europa, todos os governantes que governam para seu benefício próprio e não para o povo são democratas? Berlusconi é um democrata? Bush é um democrata? Quem massacra um povo como o do Iraque é um democrata? E vão dizer "mas Fidel não deixa sair as pessoas da ilha" e os do Iraque podem sair? E os portugueses que passam necessidades podem partir?
Sabe-se que aprecia muito Hugo Chávez...
Seguramente não é a pessoa com quem vou tomar café à tarde. Tanto faz que goste ou não, mas é a pessoa que está a pôr água e luz nas casas onde não havia, faz escolas e preocupa-se com a saúde. Aplaudo isso e está a repartir a riqueza de um país em que só se dividia a pobreza. Se nunca tivesse tido água em casa, nem luz, nem escola, nem saúde, votaria em Chávez todos os dias.
De que ideologia gosta?
Não é a que gosto, é a que tenho!
Em que partido se inscreveria?
Evidentemente que seria um partido de esquerda, mas não me pergunte qual porque hoje está tudo em mudança. Sempre fui votante do Partido Comunista até que o Partido Socialista (PSOE) me reclamou e eu respondi porque, em alguns momentos, por responsabilidade tinha de estar lá. Mas encontro-me muito bem com a Esquerda Unida de Llamazares apesar de ter votado no Partido Socialista em algumas ocasiões. Esta coisa de o voto ser secreto é outra história de que havia muito para falar. Quer-se secreto porque temos de ocultar a ideologia.
Mas hoje em dia vota em Zapatero?
Não. Voto em algumas ocasiões no PSOE e noutras na Esquerda Unida.
Em Portugal, votaria em qual?
Votaria Partido Comunista, mas nas eleições autárquicas votaria Manuel Maria Carrilho e depois António Costa. E porque não teria votado no Partido Comunista? Queria assegurar que os socialistas governassem, que fosse a esquerda.
Acredita que os partidos comunistas espanhol e português têm futuro nos tempos que correm? A esquerda tem sentido?
Sim, a esquerda é necessária mesmo que os grandes grupos de pressão digam que é uma ideia antiquada. Os "democratas" das grandes empresas e multinacionais acham e conseguem com o seu poder mediático impressionante que se considere que a esquerda não tem futuro, mas as pessoas têm cada vez mais necessidades, dívidas, angústia e problemas para viver e isto o patrão não irá solucionar.
E a União Europeia resolvê-los-á?
Sim... (ri-se) A União Europeia com Berlusconi e Sarkozy irá mesmo resolver muitos problemas...
E a Europa de Zapatero e Sócrates?
Não, porque vão ser isolados. Quem manda é essa coisa tão patética e ridícula chamada Berlusconi e do género e irão fazer o possível por isolar os partidos socialistas.
E Mariano Rajoy também é tipo Berlusconi?
Não, por Deus, não! Mariano Rajoy é uma pessoa de quem pessoalmente gosto mas representa interesses que não são os meus e tem posições perante o mundo que não são as minhas. Respeito-o.
O PP de Mariano Rajoy está num grande debate sobre se volta ao centro...
E por uma razão muito simples, é que supostamente nessa massa amorfa que é o centro é onde está a maior fonte de votos. Creio que ele quer vir a ser centro para refundar o que foi a UCD de Adolfo Suárez.
Mas está a ter grande contestação interna?
A Esperanza Aguirre é uma política e tem toda a legitimidade em querer ser a líder do Partido Popular. E como o diz claramente isso agrada-me.
As mulheres na política são como os homens, melhores ou piores?
As mulheres nunca podem ser iguais aos homens. Não são homens! E os homens não podem ser iguais às mulheres.
A actual ministra das Forças Armadas de Espanha voltou ao trabalho, seis semanas depois de ter sido mãe... Isso é ser diferente?
Não. Esteve grávida, regressou e o seu marido está de baixa a cuidar do menino.
Zapatero tem no Governo várias mulheres...
Porque é esperto. Porque é inteligente.
Só por essas razões?
Claro. Se vai fazer uma equipa de pessoas que trabalhem com ele - que não estejam a trabalhar para eles mesmos - e que trabalhem para a sociedade, então encontra nesse grupo de mulheres quem trabalhe para a sociedade e menos para elas mesmas. Estamos habituadas a ter de trabalhar para os filhos que temos.
Mas não considera que as mulheres trabalham melhor do que os homens?
Trabalhamos mais, melhor e em várias coisas de cada vez.
Essa possibilidade feminina de trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo é um mito...
Vamos lá ver, conte as coisas que já fez hoje. (Faço a lista e responde) Parece uma mulher (risos)
Como é que se porta o homem lá de casa?
Essa é outra história. Estamos a falar de um tempo distinto, um trabalho distinto, uma circunstância distinta. Não responde ao cânone.
Zapatero abraça todas as bandeiras gay. Para ganhar votos ou porque acredita?
Zapatero abraça as bandeiras que são direitos humanos e veio corrigir um défice democrático. E a legalização dos casamentos homossexuais é um défice democrático.
O casamento homossexual não a preocupa?Porquê?
É muito pior e mais complicado para a vida matrimonial os homens com barriga.
Nos EUA tivemos agora uma mulher e um afro-americano a disputar a presidência…
Um negro!
Um negro a disputar a presidência. Isso vai mudar alguma coisa nos Estados Unidos?
O que lamento é que a mulher não tenha ganho as primárias. Nos EUA, os negros conseguiram o direito a voto em todos os estados antes das mulheres. Esse senhor tem uma cor diferente mas agradava-me que fosse uma pessoa que fizesse uma mudança qualitativa e por muitíssimas razões que fosse Hillary Clinton. Porque está cheia de ira e de raiva e porque tem um domínio das coisas, mas as pessoas deixaram-se levar pelo discurso muito bonito e poético de Obama.
Entrevista de João Céu e Silva
Fotografia de Rui Coutinho
Publicada no Diário de Notícias de 06 de Julho de 2008
O que lamento é que a mulher não tenha ganho as primárias. Nos EUA, os negros conseguiram o direito a voto em todos os estados antes das mulheres. Esse senhor tem uma cor diferente mas agradava-me que fosse uma pessoa que fizesse uma mudança qualitativa e por muitíssimas razões que fosse Hillary Clinton. Porque está cheia de ira e de raiva e porque tem um domínio das coisas, mas as pessoas deixaram-se levar pelo discurso muito bonito e poético de Obama.
Entrevista de João Céu e Silva
Fotografia de Rui Coutinho
Publicada no Diário de Notícias de 06 de Julho de 2008
sexta-feira, 4 de julho de 2008
A Consistência dos Sonhos. Uma visita virtual

A Fundação César Manrique acaba de lançar um mini-site no qual se pode fazer uma visita virtual fotográfica (com opção de planos, visualização de vídeos e leitura de documentos, por exemplo) à Exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos, quando esteve patente ao público em Lanzarote em Janeiro deste ano, e que está agora em exibição em Lisboa, no Palácio Nacional da Ajuda, até ao dia 27 do corrente mês. Eis o endereço em que podem consultá-la: vale a pena; o trabalho realizado pela Fundação César Manrique, que José Saramago qualificou de notável além de emocionante, é um exemplo do bom uso que as novas tecnologias permitem, que abrem caminho à investigação e também à poesia.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Concerto na Galeria do Rei Dom Luís I
José Saramago assistirá ao concerto e, no final, estará disponível para assinar as suas obras.
A entrada é livre.
Organização: Ministério da Cultura, Instituto de Museus e Conservação e Teatro Nacional de São Carlos
A entrada é livre.
Organização: Ministério da Cultura, Instituto de Museus e Conservação e Teatro Nacional de São Carlos
Ficheiro musical: The Shostakovich Quartet, III Allegretto
terça-feira, 1 de julho de 2008
Curso livre em torno da obra de José Saramago no Palácio da Ajuda
No âmbito da exposição A Consistência dos Sonhos, patente na Galeria de Pintura do Rei Dom Luís I do Palácio da Ajuda, até ao próximo dia 27 de Julho, o Instituto dos Museus e Conservação (IMC) e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB) organizam um curso livre a decorrer nos dias 10 e 11 de Julho em torno da obra do escritor, abordando aspectos variados na obra de Saramago.O programa é o seguinte:
10 de Julho
11.30 - Maria Isabel Rocheta
12.15 - Dialogismo e encontro de culturas em História do Cerco de Lisboa
14.30 - José Manuel Mendes
15.15 - Entre romances: os Cadernos de Lanzarote
15.30 - Miguel Real
16.15 - Saramago e o romance histórico português
11 de Julho
11.30 - Paula Morão
12.15 - O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago: percurso na cidade de Lisboa
Almoço na Estufa real, Calçada da Ajuda
14.30 - Ana Paula Arnaut
15.15 - José Saramago: da (in)consistência da História à consistência dos sonhos
15.30 - José Manuel Mendes
16.15 - As palavras - Leitura de textos de José Saramago
Inscrições gratuitas até 7 de Julho:
saramago.expo@dglb.pt
Tel. - 21 798 21 43 ou 45
Fax - 21 798 21 41
Almoço na esplanada do restaurante Estufa Real (28€)
Jardim Botânico da Ajuda, Calçada da Ajuda
Inscrição prévia nos mesmos contactos
Ao clicar na imagem, pode ver o programa em tamanho real
10 de Julho
11.30 - Maria Isabel Rocheta
12.15 - Dialogismo e encontro de culturas em História do Cerco de Lisboa
14.30 - José Manuel Mendes
15.15 - Entre romances: os Cadernos de Lanzarote
15.30 - Miguel Real
16.15 - Saramago e o romance histórico português
11 de Julho
11.30 - Paula Morão
12.15 - O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago: percurso na cidade de Lisboa
Almoço na Estufa real, Calçada da Ajuda
14.30 - Ana Paula Arnaut
15.15 - José Saramago: da (in)consistência da História à consistência dos sonhos
15.30 - José Manuel Mendes
16.15 - As palavras - Leitura de textos de José Saramago
Inscrições gratuitas até 7 de Julho:
saramago.expo@dglb.pt
Tel. - 21 798 21 43 ou 45
Fax - 21 798 21 41
Almoço na esplanada do restaurante Estufa Real (28€)
Jardim Botânico da Ajuda, Calçada da Ajuda
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